As escolhas que formam o caráter de quem empreende e dão sentido ao que se constrói.
A folha de pagamento se aproxima, um cliente importante atrasa e uma nova venda depende de uma promessa que a empresa talvez não consiga cumprir. O empreendedor precisa decidir. Conhece suas obrigações, sabe o que está em jogo e gostaria de encontrar uma saída que não prejudicasse ninguém. Mas nem sempre existe uma solução sem perdas. É nessas circunstâncias, quando os princípios encontram a pressão da realidade, que falar de virtudes deixa de parecer um assunto distante da vida empresarial.
Há também provas menos visíveis, que aparecem quando tudo vai bem. O poder de decidir sem ser questionado, a oportunidade de tirar vantagem de alguém menos informado, a facilidade de atribuir a si mesmo um resultado construído por muitas mãos. A dificuldade pode nos levar a justificar uma conduta que antes condenávamos; o sucesso pode nos convencer de que já não precisamos prestar contas. Em ambos os casos, precisamos reconhecer os limites do que podemos fazer, mesmo quando temos condições de fazê-lo.
Ao tratar de virtudes no empreendedorismo, não penso em pessoas irrepreensíveis, que atravessam a vida sem contradições. Penso em quem deseja construir alguma coisa de valor e percebe que o trabalho também o transforma. Enquanto organiza uma empresa, aprende a lidar com dinheiro, autoridade, frustração, reconhecimento e responsabilidade. Nessa convivência diária, pode tornar-se mais justo e prudente, mas também mais vaidoso, impaciente ou indiferente. Por isso, além de perguntar o que estamos construindo, precisamos considerar quem estamos nos tornando.
O caráter também se forma
É comum reconhecer o talento de alguém para vender, negociar, organizar processos ou identificar oportunidades. Algumas pessoas demonstram facilidade nessas atividades; outras precisam de mais estudo, exercício e experiência. Essas diferenças importam, mas não explicam, por si mesmas, a qualidade moral de uma conduta. Saber convencer não significa dizer a verdade. Ter disciplina não assegura que o objetivo perseguido seja justo. Uma pessoa pode ser muito competente e empregar sua competência de maneira prejudicial.
A virtude pertence a outra dimensão. Ela diz respeito à formação do caráter e à disposição de agir bem, com discernimento e constância. Valores expressam aquilo que reconhecemos como um bem; princípios oferecem orientação às nossas decisões; virtudes tornam essa orientação presente na maneira de viver. Reconhecer a honestidade como um valor é importante. Assumir o compromisso de não enganar é um princípio. Cultivar a honestidade exige que esse compromisso apareça na proposta comercial, na prestação de contas e na informação que transmitimos, inclusive quando a verdade pode nos custar uma vantagem.
Na reflexão de Aristóteles, as virtudes morais se formam pelo hábito e envolvem escolhas orientadas pela razão. Não se trata de nascer com um caráter pronto, tampouco de realizar um gesto correto de maneira ocasional, mas de formar uma disposição para escolher e agir bem. Essa compreensão afasta a virtude tanto da ideia de talento quanto da aparência de bondade: importa o que fazemos, por que fazemos e a constância com que procuramos fazê-lo. (Aristóteles, Ética a Nicômaco, livro II, capítulos 1 e 6.)
Para o empreendedor, isso tem uma consequência prática: o caráter também precisa de trabalho. Quem reconhece a própria impaciência pode aprender a ouvir antes de reagir. Quem costuma prometer além do que consegue entregar pode disciplinar a palavra. Quem se fecha diante de uma crítica pode exercitar a humildade de examiná-la. Não basta afirmar “eu sou assim” e transformar uma dificuldade pessoal em obrigação para os outros. Reconhecer uma limitação é o começo de uma responsabilidade, não uma autorização para perpetuá-la.
Esse aperfeiçoamento não acontece apenas nas grandes decisões. Ele passa por corrigir uma cobrança indevida sem esperar a reclamação do cliente, reconhecer a contribuição de um funcionário e recusar uma explicação conveniente quando sabemos que ela não corresponde aos fatos. São situações discretas, muitas vezes sem testemunhas. Ainda assim, nelas se decide se nossos princípios têm força suficiente para orientar a conduta ou se permanecem apenas como uma boa descrição de quem gostaríamos de ser.
Quando os princípios encontram a pressão
É relativamente fácil defender a honestidade quando ela não nos custa nada. A questão se torna mais exigente quando precisamos revelar uma falha que pode comprometer a venda, reconhecer um erro que afeta nossa imagem ou cumprir um compromisso que deixou de ser vantajoso. Nessas horas, surgem justificativas compreensíveis: o mês foi difícil, a concorrência faz o mesmo, o cliente poderia ter perguntado, ninguém será seriamente prejudicado. A pressão é real. O cuidado necessário está em não permitir que ela se transforme em licença permanente para agir contra aquilo que afirmamos respeitar.
Isso não significa exigir do empreendedor uma vida de sacrifício irrefletido. Uma empresa precisa negociar, cobrar, estabelecer condições e proteger sua continuidade. Há clientes que fazem exigências indevidas, parceiros que descumprem acordos e situações em que a recusa é a decisão responsável. A virtude não pede ingenuidade. Pede que, mesmo ao defender um interesse legítimo, não se recorra ao engano, à humilhação ou ao abuso de uma posição de força.
Pensemos no fornecedor a quem se pede mais prazo. Ele também pode ter compromissos vencendo, funcionários esperando e uma família dependente daquele negócio. Reconhecer essa realidade não resolve a falta de dinheiro, mas deve influenciar a forma de conduzir a conversa. Há diferença entre procurar o fornecedor, expor a dificuldade e propor algo que se possa cumprir, e simplesmente desaparecer até que a cobrança se torne incontornável. O problema financeiro pode ser o mesmo; a responsabilidade assumida diante dele, não.
A prudência ajuda a compreender essas circunstâncias sem perder de vista as consequências. Ela exige examinar a capacidade de entrega antes de prometer, considerar quem suportará o risco de uma decisão e distinguir uma dificuldade passageira de um projeto que perdeu sustentação. A coragem, por sua vez, pode ser necessária para tomar uma decisão impopular, interromper uma operação ou admitir que determinada aposta estava errada. Persistir merece respeito quando há razões para continuar; insistir apenas para não reconhecer um equívoco pode transferir aos outros o custo do nosso orgulho.
Também precisamos de temperança para lidar com as oportunidades. Nem toda expansão precisa ser realizada, nem toda disputa merece ser vencida, nem toda possibilidade de ganho justifica o comprometimento da tranquilidade e dos compromissos já assumidos. O desejo de crescer pode ser legítimo e fecundo. Mas ele precisa conviver com a capacidade de reconhecer o suficiente, respeitar limites e aceitar que o valor de uma pessoa não aumenta na mesma proporção que o tamanho de sua empresa.
A responsabilidade por quem está ao nosso alcance
Uma empresa reúne pessoas com capacidades, dificuldades e expectativas distintas. Cabe ao gestor organizar esse trabalho, exigir resultados e corrigir o que não funciona. O modo de exercer essa autoridade, porém, merece tanta atenção quanto sua finalidade. Uma cobrança pode ser necessária sem se tornar uma exposição pública. Um erro precisa ser enfrentado sem que a pessoa seja reduzida a ele. A posição de comando nos permite tomar decisões; não nos dispensa de considerar seus efeitos sobre os outros.
Ser justo também exige enfrentar situações desconfortáveis. A tolerância contínua com quem descumpre responsabilidades pode sobrecarregar aqueles que trabalham com seriedade. O favorecimento de uma pessoa próxima pode retirar oportunidades de alguém mais preparado. Evitar uma conversa difícil, apenas para preservar a própria imagem de pessoa agradável, pode prolongar um problema que todos já percebem. Há uma bondade aparente que não resolve nada porque se recusa a assumir o desconforto de decidir.
Por outro lado, a necessidade de firmeza não autoriza a indiferença. Uma demissão pode ser inevitável e ainda assim merece clareza, respeito e cuidado na comunicação. Para quem decide, talvez seja uma entre muitas tarefas do dia; para quem recebe a notícia, pode representar uma mudança profunda na vida. Considerar essa diferença não elimina a decisão nem enfraquece a gestão. Apenas impede que a rotina nos faça esquecer a dimensão humana daquilo que estamos fazendo.
A humildade tem especial importância nesse exercício da autoridade. Quem responde por uma empresa não pode depender da ilusão de que sempre sabe mais ou de que admitir um erro compromete sua posição. Ouvir uma objeção, pedir ajuda e rever uma decisão podem ser atitudes exigentes, sobretudo depois de anos ocupando o lugar de quem dá a palavra final. Mas a responsabilidade pelo resultado deve ser maior que a necessidade de preservar uma aparência de infalibilidade.
Quando o erro já aconteceu, o trabalho moral não termina no arrependimento. É preciso corrigir a informação, devolver o que foi recebido indevidamente, reconhecer a injustiça ou reparar o dano na medida do possível. Pedir desculpas tem valor, mas não substitui as providências que ainda estão ao nosso alcance. Ninguém constrói uma trajetória sem falhas. O que merece atenção é a disposição de enfrentá-las, em vez de organizar explicações para conviver confortavelmente com elas.
A pessoa que volta para casa
Exercemos papéis diferentes ao longo do dia. Somos gestores, clientes, pais, mães, cônjuges, filhos e amigos. Cada relação pede uma forma de presença, e não há incoerência em adaptar a linguagem, a postura e o grau de formalidade às circunstâncias. O problema começa quando essa adaptação se torna uma separação moral: alguém merece nossa paciência porque pode contratar nossos serviços, enquanto quem convive conosco recebe apenas o cansaço e a irritação que sobraram.
Não se trata de exigir serenidade ininterrupta de quem enfrenta responsabilidades. Há dias difíceis, preocupações que atravessam a porta de casa e limites que precisam ser compreendidos. Ainda assim, a intimidade não deveria funcionar como autorização para descuidar do respeito. As pessoas próximas não precisam receber uma versão impecável de nós, mas merecem participar de nossa consideração, de nossa escuta e de nosso esforço de melhorar.
O próprio negócio precisa encontrar um lugar na vida que não destrua tudo aquilo que deveria ajudar a sustentar. Empreender exige dedicação, e há períodos em que o trabalho ocupa mais espaço do que gostaríamos. Convém, porém, examinar quando uma exigência temporária se tornou um modo permanente de viver. Descansar, cuidar da saúde e estar presente nas relações importantes também são responsabilidades. Nem sempre o crescimento da empresa compensa o que deixamos se deteriorar fora dela.
Talvez uma pergunta nos ajude a perceber o alcance de nossas escolhas: o que aprenderiam as pessoas mais próximas se tomassem nossa conduta, e não nossos conselhos, como referência? Não é uma pergunta confortável, porque todos temos alguma distância entre o que recomendamos e o que praticamos. Mas ela pode nos devolver a uma tarefa honesta: diminuir essa distância sem fingir que já a eliminamos.
Prosperar sem perder o respeito por si mesmo
Uma vida virtuosa não oferece garantia de sucesso empresarial. Pessoas honestas podem perder dinheiro, empresas responsáveis podem fracassar e condutas reprováveis podem produzir vantagens durante muito tempo. Seria injusto transformar o resultado financeiro em certificado de caráter, assim como seria imprudente imaginar que boas intenções substituem conhecimento, organização e capacidade de execução.
O lucro legítimo tem seu lugar. Ele remunera o trabalho e o capital empregado, permite reinvestir e contribui para a continuidade da empresa. Não precisamos tratá-lo como algo menor para reconhecer a importância das virtudes. Precisamos, isso sim, examinar como ele é obtido, quais responsabilidades acompanha e que lugar ocupa nas decisões. Há oportunidades que devemos aproveitar com empenho e outras que devemos recusar, ainda que a recusa não seja compreendida por todos.
É nesse ponto que vejo o sentido das virtudes para quem empreende. Elas nos ajudam a dar direção à competência e a assumir os efeitos de nossas escolhas. Não retiram a dureza de certas decisões, mas nos exigem seriedade ao tomá-las. Não nos tornam superiores às outras pessoas, mas aumentam nossa responsabilidade pelo que sabemos, pelo que prometemos e pelo poder que exercemos.
Desejo que nossos empreendimentos prosperem. Que tragam sustento, realização e oportunidades para outras pessoas. Mas desejo também que possamos olhar para o caminho percorrido sem precisar esconder de nós mesmos a maneira como chegamos até ali. Haverá erros a reconhecer e decisões que hoje tomaríamos de outro modo. Que exista, junto deles, a disposição sincera de reparar, aprender e continuar trabalhando no próprio caráter. Essa é uma obra que acompanha todas as outras.
Bom trabalho e grande abraço!
Rafael José Pôncio
