Da experiência nos restaurantes do Rio de Janeiro à formação de uma grande rede hoteleira, uma trajetória de trabalho, visão empresarial e compromisso com a hospitalidade.
Há uma parte da hotelaria que pode ser fotografada: a arquitetura, a vista para o mar, a piscina, o restaurante e os ambientes cuidadosamente preparados. Outra parte, igualmente importante, só aparece quando alguém se hospeda. Está na maneira como uma solicitação é atendida, na coordenação entre as equipes, na qualidade de uma refeição e na segurança de encontrar aquilo que foi prometido. A excelência surge quando essas duas dimensões conseguem funcionar juntas.
É por essa perspectiva que considero especialmente significativa a trajetória de José Oreiro Campos. Antes de se tornar o empresário associado à construção da Rede Windsor, ele trabalhou como garçom e desenvolveu negócios no setor de restaurantes do Rio de Janeiro. Seu percurso permite acompanhar a passagem da experiência direta com o atendimento à organização de empreendimentos de grande porte.
O interesse dessa história está naquilo que foi sendo construído entre uma etapa e outra: a percepção de oportunidades, a associação com outros empresários, a recuperação de imóveis, a preparação de equipes e a consolidação de uma marca. É nesse conjunto de realizações que a grandeza empresarial de Oreiro se revela.
Da Galícia à experiência nos restaurantes
José Oreiro nasceu em Pesadoira, uma localidade de Negreira, na Galícia, região espanhola próxima a Santiago de Compostela. Segundo o relato institucional da Windsor, chegou ao Brasil aos 18 anos para trabalhar em restaurantes. O início como garçom também foi registrado pela imprensa brasileira e pelo jornal espanhol La Voz de Galicia.
A reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 2011 informa que ele veio de uma família de padeiros e ganhou projeção nos restaurantes cariocas. Entre seus estabelecimentos estavam o Cirandinha, em Copacabana, apresentado como seu primeiro negócio, e casas como o Monte Carlo.
Essa origem oferece uma chave interessante para interpretar sua trajetória. Um restaurante aproxima o empresário da execução cotidiana: o produto precisa chegar à mesa, o atendimento acontece diante do cliente e uma falha dificilmente permanece escondida atrás de uma boa apresentação. É uma atividade em que estrutura, abastecimento, cozinha e serviço precisam encontrar coordenação. A passagem de Oreiro por esse universo ajuda a compreender a importância que a operação viria a ter em sua história empresarial.
A relação entre essas raízes e a identidade da Windsor foi destacada pelo Hotelier News na reportagem sobre os 30 anos da rede, em 2016. O veículo associou a experiência anterior dos fundadores à atenção dedicada aos serviços de alimentos e bebidas, inclusive nos eventos realizados nos hotéis. A gastronomia, portanto, aparece como uma continuidade da formação empresarial do grupo, e não apenas como um serviço acrescentado à hospedagem.
Há mérito nessa capacidade de ampliar o campo de atuação sem desperdiçar o conhecimento acumulado. Na leitura dessa trajetória, a experiência dos restaurantes constitui uma base a partir da qual novas responsabilidades puderam ser assumidas.
O Guanabara e uma leitura precisa da cidade
A história da Rede Windsor Hotéis começou com uma oportunidade concreta. Um grupo de empresários de outros setores, entre eles a gastronomia, reuniu-se para adquirir um hotel no Centro do Rio de Janeiro. Oreiro liderou a iniciativa e convenceu os sócios de que o imóvel, próximo ao encontro das avenidas Rio Branco e Presidente Vargas, tinha condições favoráveis para receber executivos em viagens de negócios. Em dezembro de 1986, foi inaugurado o Windsor Guanabara, primeiro hotel do grupo.
A escolha permite perceber uma qualidade importante dessa decisão: sua relação com a demanda. O ponto de partida não foi apenas a atratividade de um prédio, mas a possibilidade de dar a ele uma função comercial bem definida. Havia uma localização e um público a atender. A meu ver, é nessa combinação que a visão empresarial ganha conteúdo: identificar para quem o empreendimento pode ser útil e organizar os meios para atendê-lo.
Também merece atenção o caráter coletivo da iniciativa. Oreiro ocupou a posição de liderança, mas a origem da rede envolveu a reunião de empresários em torno de uma oportunidade comum. A própria narrativa institucional preserva essa participação dos sócios na aquisição que deu início ao grupo.
Reconhecer essa dimensão não reduz o protagonismo do fundador. Ao contrário, permite valorizá-lo de maneira mais completa. Liderar uma realização empresarial também significa conseguir apresentar uma ideia com clareza suficiente para que outras pessoas decidam participar dela, comprometendo recursos e assumindo responsabilidades.
A Barra da Tijuca e o encontro entre hospedagem e eventos
A expansão da Windsor acrescentou outra dimensão à proposta inicial. Em 2005, a rede inaugurou o Windsor Barra, seu primeiro hotel na Barra da Tijuca. A unidade passou a integrar uma trajetória em que a hospedagem se associaria cada vez mais à realização de encontros e eventos.
Um episódio ajuda a compreender essa inserção: durante os Jogos Pan-Americanos de 2007, o Windsor Barra hospedou dirigentes internacionais. A Folha registrou que Oreiro recebeu uma homenagem do Comitê Olímpico Brasileiro pelo atendimento prestado naquela ocasião.
A relevância empresarial dessa atuação está na necessidade de entregar uma operação coordenada. Receber participantes de um evento exige compatibilizar hospedagem, alimentação, circulação e horários. A qualidade passa a depender tanto do atendimento individual quanto da capacidade de organizar o conjunto. Sob esse aspecto, a aproximação entre hotéis e eventos representava uma ampliação importante do trabalho que a rede se propunha a realizar.
Esse posicionamento aparece de maneira explícita na reportagem do Hotelier News de 2016: o público corporativo era apresentado como o principal foco do negócio, acompanhado por investimentos em estruturas mais completas para convenções. Não se tratava, portanto, apenas de aumentar o número de quartos, mas de desenvolver uma oferta adequada a uma modalidade específica de demanda.
É uma distinção que ajuda a compreender a consistência da expansão. Na interpretação dessa trajetória, os empreendimentos ganham força quando passam a fazer parte de uma proposta de atendimento, em vez de permanecerem apenas como imóveis isolados.
O antigo Le Méridien e a recuperação de um empreendimento emblemático
Um dos movimentos mais expressivos dessa construção ocorreu em 2009, com a aquisição do antigo Le Méridien, na orla de Copacabana. O La Voz de Galicia noticiou a operação e descreveu um hotel fechado desde 2007, cuja retomada dependeria de obras de recuperação. A reportagem também registrou a participação de grupos internacionais nas negociações pelo empreendimento.
O episódio dá uma medida da ambição alcançada pela Windsor. A oportunidade envolvia um edifício conhecido, em uma localização de destaque, mas que precisava voltar a funcionar. Entre adquirir a propriedade e receber novamente os hóspedes havia um trabalho de transformação a executar. Esse é um ponto central para avaliar o mérito empresarial da operação: o valor potencial do imóvel precisava encontrar correspondência em uma atividade efetivamente restabelecida.
A abertura do Windsor Atlântica começou em 30 de dezembro de 2010. Em retrospectiva publicada quatro anos depois, a PANROTAS descreveu a reforma do prédio e a introdução de novas estruturas, entre elas o spa e a piscina nos pavimentos superiores. O antigo hotel iniciava, assim, uma nova fase sob a marca Windsor.
Em 2017, esse capítulo teve outro desdobramento. A Blackstone anunciou que fundos administrados por sua área imobiliária haviam firmado um acordo para adquirir o Windsor Atlântica, com previsão de gestão pela Hilton. No comunicado, o grupo comprador destacou a ampla renovação promovida pela Windsor e elogiou publicamente a condução do empreendimento.
Esse reconhecimento tem um significado particular, ainda que inserido na comunicação de uma transação comercial. Ele registra a avaliação favorável de quem examinava o hotel como investimento e assumiria uma nova etapa de sua trajetória. A sequência de aquisição, recuperação e negociação permite reconhecer uma competência que atravessa o patrimônio e a operação: trabalhar sobre um empreendimento existente, reorganizá-lo e devolver-lhe capacidade de atendimento.
A excelência também se organiza nos bastidores
A recuperação do antigo Le Méridien não se limitou às obras. Em dezembro de 2010, a PANROTAS informou que aproximadamente 30 profissionais do futuro Windsor Atlântica haviam participado de um treinamento no Windsor Barra. O encontro reuniu gestores de diferentes áreas para preparar a reabertura. Segundo o gerente-geral Ricardo Kawa, havia profissionais promovidos internamente e outros contratados, e foram estabelecidos padrões e metas para a operação.
Esse acontecimento merece espaço na história porque mostra o trabalho anterior à experiência do hóspede. Uma inauguração depende de muito mais do que ambientes prontos. É necessário que as pessoas compreendam suas funções, saibam como atuar em conjunto e reconheçam o padrão que se pretende entregar. A preparação documentada daquela equipe permite enxergar uma parte menos visível, mas decisiva, da transformação do hotel.
O cuidado com a operação também aparece em situações posteriores. Ao tratar do movimento de fim de ano em 2014, a PANROTAS registrou que o Windsor Atlântica havia aberto um terceiro espaço para o café da manhã, buscando atender os hóspedes com mais conforto e oferecendo uma opção para quem desejasse tomar a refeição mais tarde.
É um detalhe aparentemente pequeno diante da dimensão do investimento, mas revelador daquilo que a hospitalidade exige. O edifício estabelece as possibilidades; a gestão precisa ajustá-las ao uso real. Um salão adicional, uma equipe preparada ou uma mudança no funcionamento podem influenciar a experiência tanto quanto elementos mais vistosos da estrutura.
Nesse sentido, a excelência não deve ser entendida como um atributo que o empreendimento recebe de uma vez por todas. Ela precisa ser sustentada no atendimento, nas escolhas operacionais e na disposição de corrigir o que deixa de funcionar bem. É sob essa perspectiva que os episódios documentados da Windsor ganham profundidade.
Brasília e a expansão para além do Rio
Em 2015, a Windsor levou sua operação hoteleira para Brasília, inaugurando duas unidades em menos de seis meses: o Windsor Plaza Brasília e o Windsor Brasília. A entrada na capital federal combinou a aquisição de um hotel existente com a implantação de outro empreendimento.
O primeiro foi o antigo Naoum Plaza, reaberto como Windsor Plaza Brasília em 19 de janeiro daquele ano. Na cobertura da PANROTAS, os executivos da rede apontaram a localização, o estado de conservação do edifício e a compatibilidade entre os públicos dos dois grupos como fatores relevantes para a aquisição. As adaptações continuaram após a reabertura, abrangendo diferentes ambientes e serviços.
Essa explicação torna a expansão mais interessante do que uma simples notícia de crescimento. A decisão se apoiava em características identificáveis do empreendimento e de sua clientela. O imóvel tinha atributos que favoreciam sua incorporação à rede, e a aproximação entre os perfis dos hóspedes ajudava a sustentar a escolha. Não era apenas a entrada em outra cidade; era a busca de um lugar onde a experiência já desenvolvida pudesse encontrar continuidade.
A segunda unidade, o Windsor Brasília, acrescentou outra presença à marca na capital. Enquanto o Plaza ocupava o Setor Hoteleiro Sul, o novo hotel foi implantado no Setor Hoteleiro Norte. A cobertura da época mostra uma expansão conduzida por caminhos distintos, reunindo aquisição e construção dentro de uma mesma estratégia territorial.
O fundador, a família e as pessoas da empresa
Em seu perfil de 2011, a Folha descreveu Oreiro como um empresário reservado, que visitava hotéis e obras depois de caminhar pela orla. Registrou também a participação familiar: sua filha cuidava da área financeira, e uma neta havia começado a trabalhar na rede aos 17 anos.
Essas informações aproximam o leitor da pessoa sem exigir a invenção de cenas ou pensamentos. O empresário aparece ligado ao acompanhamento dos empreendimentos, enquanto a família participa de funções concretas do negócio. É uma dimensão humana que merece atenção: a empresa se torna parte de uma história compartilhada, com convivência, aprendizado e responsabilidades que atravessam gerações.
Essa continuidade foi destacada pelo HotéisRIO nas comemorações dos 35 anos da Windsor. Na ocasião, Alfredo Lopes, então presidente da entidade, ressaltou a solidez do trabalho empresarial de Oreiro e a presença da terceira geração na gestão familiar.
O retrato da organização também inclui profissionais que construíram carreiras dentro dela. Na reportagem de 2016, o Hotelier News registrou homenagens a funcionários antigos e informou que Rosângela Gonçalves, então diretora comercial, estava havia 20 anos na companhia. São presenças que ajudam a compreender a continuidade do trabalho para além do fundador.
Reconhecer essas pessoas faz parte de reconhecer a própria realização de Oreiro. Uma rede hoteleira depende da contribuição de quem recebe, cozinha, organiza, conserva, administra e resolve problemas. A iniciativa empresarial cria as condições para o empreendimento existir; sua continuidade exige que muitas outras pessoas consigam trabalhar dentro de uma direção comum.
Uma marca que participa da vida das cidades
Ao se aproximar dos 40 anos, a serem completados em dezembro de 2026, a Windsor reúne 17 hotéis, sendo 15 no Rio de Janeiro e dois em Brasília, com unidades de três a cinco estrelas. Sua presença carioca alcança o Centro, a Zona Sul e a Barra da Tijuca, atendendo diferentes perfis de viagem.
A dimensão da atuação em eventos também se tornou expressiva. O Centro de Convenções & Hotéis Windsor reúne os hotéis Windsor Barra, Windsor Oceanico e Windsor Tower. Em reportagem de 2026, a Revista Manchete apresentou o conjunto com aproximadamente 1.170 quartos e 25 mil metros quadrados distribuídos em 97 salões multiusos.
Esses números permitem compreender a escala alcançada, mas a contribuição empresarial não se encerra neles. Hospedagem e espaços para encontros oferecem condições materiais para que viagens profissionais, convenções e outras atividades aconteçam. O empreendimento passa a participar da capacidade de uma cidade receber pessoas e sediar compromissos que exigem estrutura.
Há também reconhecimentos específicos à prestação desses serviços. No Prêmio Caio de 2020, a Windsor conquistou quatro troféus. As duas unidades de Brasília receberam ouro em categorias regionais de hotéis com espaços para eventos, enquanto o centro de convenções carioca obteve prata nas categorias regional e nacional de grande porte.
A homenagem ao fundador acompanhou esse reconhecimento da obra empresarial. Em dezembro de 2021, José Oreiro recebeu a Medalha Pedro Ernesto da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, por sua trajetória de empreendedorismo e incentivo ao turismo na cidade.
A grandeza de uma obra empresarial
Ao reunir esses acontecimentos, vejo uma trajetória cujo valor está na combinação de capacidades. Houve experiência no atendimento, identificação de demanda, articulação com sócios, investimento em imóveis, recuperação de empreendimentos e desenvolvimento de operações. A construção da Windsor oferece matéria suficiente para reconhecer José Oreiro como um nome relevante da história da hotelaria brasileira.
O que especialmente me chama a atenção é a ligação entre a dimensão do investimento e a atenção necessária para que ele cumpra sua finalidade. Um grande hotel pode impressionar pela arquitetura, mas é no funcionamento cotidiano que seu valor se confirma. A obra empresarial se completa quando a estrutura consegue servir às pessoas para as quais foi concebida.
É por isso que essa história merece ser preservada. O reconhecimento não precisa se limitar ao tamanho da rede ou à imponência de seus edifícios. Pode alcançar o trabalho de transformar oportunidades em empreendimentos, reunir pessoas em torno de uma atividade e manter uma proposta de atendimento ao longo do tempo.
Na trajetória de José Oreiro, a hospitalidade encontrou uma expressão empresarial de grande alcance. E há uma grandeza particular em construir lugares destinados a receber: espaços que, embora pertençam a uma empresa, passam a integrar as viagens, os encontros e as lembranças de muitas outras pessoas.
Bom trabalho e grande abraço!
Rafael José Pôncio
Dos corredores silenciosos ao coração dos hóspedes
José Oreiro construiu mais que hotéis — ergueu confiança, acolheu histórias e ensinou que hospitalidade é servir com alma.
Descubra essa jornada no livro Os Empreendedores que Mudaram o Brasil – Volume 2, publicado pela Editora Labrador, autor Rafael José Pôncio.
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