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quinta-feira, 21 de maio de 2026

Impostos Altos e Liberdade Econômica

Impostos Altos e Liberdade Econômica

Uma leitura austríaca sobre impostos altos, liberdade econômica, capital, investimentos, dividendos e carga tributária no Brasil.



Impostos Altos e Liberdade Econômica

Uma leitura austríaca sobre a carga tributária brasileira

A discussão sobre impostos no Brasil raramente alcança sua verdadeira profundidade. Em geral, o debate público se limita a perguntar quem deve pagar mais, quem deve pagar menos e quanto o Estado conseguirá arrecadar no exercício seguinte. Essa é uma leitura estreita. O problema tributário brasileiro não é apenas contábil, fiscal ou orçamentário. É também econômico, moral, institucional e civilizacional.

Pela ótica da Escola Austríaca de Economia, impostos não são apenas instrumentos neutros de arrecadação. Eles alteram incentivos, mudam comportamentos, afetam decisões empresariais, reduzem a formação de capital e interferem no cálculo econômico. Quando a carga tributária avança sobre renda, lucros, dividendos, juros sobre capital próprio, consumo e patrimônio, ela não alcança apenas uma abstração chamada “alta renda”. Ela alcança pessoas reais que poupam, investem, empreendem, contratam, assumem riscos e sustentam estruturas produtivas.

É nesse ponto que a análise precisa amadurecer. O empreendedor não é apenas alguém que obtém lucro. Ele é o agente que antecipa demandas, organiza recursos escassos, suporta incertezas, toma decisões antes de qualquer garantia de sucesso e transforma capital em atividade econômica. O investidor não é apenas alguém que recebe rendimentos. Ele é aquele que renuncia ao consumo presente para financiar produção, empresas, imóveis, máquinas, tecnologia, infraestrutura e crescimento futuro.

Quando o sistema tributário passa a enxergar esses agentes principalmente como fonte de arrecadação, o país começa a corroer a própria base de sua prosperidade.



A unanimidade política e o custo econômico da decisão

No fim de 2025, o Brasil aprovou uma mudança tributária relevante. O PL 1.087/2025, convertido na Lei nº 15.270/2025, foi aprovado na Câmara dos Deputados por unanimidade entre os votantes, com 493 votos favoráveis e nenhum voto contrárioA norma ampliou a faixa de isenção do Imposto de Renda para rendimentos menores, mas também instituiu tributação mínima aplicável a contribuintes alcançados pelos novos critérios de rendimento anual, além de criar retenção de 10% sobre lucros e dividendos superiores a R$ 50 mil por mês, quando pagos por uma mesma pessoa jurídica a uma mesma pessoa física residente no Brasil.

Esse ponto merece uma leitura cuidadosa. Não se trata de negar que houve alívio tributário para parte da população. O ponto central é outro: houve consenso político quase absoluto para deslocar maior carga efetiva sobre rendas, dividendos e capital acumulado. Em termos econômicos, isso significa tributar com mais intensidade justamente o universo onde se encontram muitos empresários, investidores, sócios, controladores e famílias patrimoniais que sustentam empresas, investimentos e estruturas produtivas.

A aprovação unânime não torna a medida economicamente correta apenas por ter sido politicamente consensual. A história econômica está cheia de consensos políticos que produziram efeitos ruins no longo prazo. O voto parlamentar mede força política; não mede necessariamente qualidade econômica.

Esse é um dos grandes alertas da tradição austríaca: decisões centralizadas podem parecer racionais quando vistas do orçamento público, mas produzir efeitos destrutivos quando observadas a partir da ação dos indivíduos, dos empresários e dos investidores.

O Estado enxerga arrecadação. O empresário enxerga risco. O investidor enxerga retorno líquido. A família patrimonial enxerga continuidade. A economia real nasce justamente dessa diferença de perspectivas.



O imposto alto altera o cálculo econômico

Ludwig von Mises ensinou que a economia deve ser compreendida a partir da ação humana. O indivíduo age porque deseja sair de uma situação menos satisfatória para uma situação mais satisfatória. 

O empresário investe porque acredita que pode transformar recursos em valor. O investidor aloca capital porque espera preservar e multiplicar poder de compra. A família empresária organiza patrimônio porque busca continuidade, proteção e sucessão.

Mas toda ação econômica depende de cálculo.

O cálculo empresarial compara custo, risco, receita, prazo, juros, inflação, tributos, legislação, demanda, concorrência e retorno esperado. Quando a carga tributária aumenta, o cálculo muda. Um projeto antes viável pode deixar de ser. Uma distribuição de lucros pode ser adiada. Um investimento pode ser redirecionado. Uma expansão pode ser suspensa. Um imóvel pode deixar de ser adquirido. Uma empresa pode deixar de contratar. Um capital pode sair do país.

Essa é a parte invisível do imposto alto. Ele não aparece apenas na guia recolhida. Aparece também nas decisões que deixam de acontecer.

O dano econômico mais grave muitas vezes não está no imposto pago, mas no investimento que nunca foi realizado, no emprego que nunca foi criado, na empresa que nunca nasceu e no capital que decidiu procurar outro ambiente.

Uma sociedade pode até aumentar sua arrecadação no curto prazo. Mas, se destruir os incentivos que sustentam a formação de capital, estará apenas consumindo hoje a prosperidade que deveria financiar o amanhã.



Dividendos, JCP e a remuneração do risco

A tributação sobre dividendos acima de determinado patamar atinge diretamente a remuneração do capital empresarial. O mesmo ocorre com o aumento da tributação sobre juros sobre capital próprio, cuja alíquota foi elevada para 17,5% pela Lei Complementar nº 224/2025.

Para parte da opinião pública, dividendos e JCP são tratados como simples renda de quem “ganha muito”. Essa leitura é superficial. Antes do dividendo, houve capital investido. Antes do JCP, houve patrimônio colocado em risco. Antes da remuneração do sócio, houve empresa, folha de pagamento, tributos corporativos, fornecedores, crédito, inadimplência, concorrência, incerteza regulatória e risco de fracasso.

O lucro distribuído não nasce no vazio. Ele é consequência de uma cadeia de decisões anteriores.

Quando o Estado tributa mais intensamente essa etapa final, ele não está apenas alcançando uma renda. Ele está alterando o prêmio econômico de permanecer produtivo. Isso muda a cabeça do investidor. Muda a cabeça do controlador. Muda a cabeça da família empresária. Muda a cabeça de quem decide se reinveste, distribui, protege, vende, muda de país ou simplesmente reduz exposição.

A Escola Austríaca insiste em algo que muitas análises fiscais ignoram: incentivos importam. Pessoas respondem a incentivos. Empresários respondem a incentivos. Capital responde a incentivos.

Dividendos

E capital, diferentemente do discurso político, não precisa convencer ninguém. Ele apenas se move.



O investidor patrimonial diante de um país mais caro

O dono de uma holding patrimonial, o investidor relevante e o empresário que organiza capital para longo prazo não observam apenas a alíquota de hoje. Eles observam a direção institucional do país.

Uma estrutura patrimonial séria não existe para esconder riqueza. Existe para organizar ativos, proteger continuidade, disciplinar sucessão, separar riscos, melhorar governança e permitir visão de longo prazo. Em muitos casos, essas estruturas sustentam imóveis produtivos, participações societárias, empresas familiares, holdings operacionais, galpões, terras, fundos, sociedades e projetos que geram emprego e renda.

Quando o sistema tributário aumenta a pressão sobre renda, dividendos, JCP, consumo e patrimônio, o investidor patrimonial passa a fazer uma pergunta legítima: vale a pena manter capital produtivo em um ambiente cada vez mais oneroso, instável e complexo?

Essa pergunta não é antipatriótica. É econômica.

O capital tem responsabilidade, mas também tem alternativas. Em um mundo globalizado, o investidor compara jurisdições. Compara segurança jurídica, moeda, tributação, estabilidade institucional, liberdade econômica, respeito ao contrato, custo de conformidade e previsibilidade regulatória.

O Brasil não disputa capital apenas com o próprio passado. Disputa com o mundo.

Se o país trata o capital como inimigo, o capital procura ambientes onde seja tratado como condição para o desenvolvimento. O resultado é conhecido: menos investimento, menos produtividade, menos inovação, menos empregos qualificados e menor crescimento de longo prazo.



A ilusão fiscal do curto prazo

Todo aumento de imposto carrega uma promessa sedutora: mais arrecadação. No curto prazo, essa promessa pode até se confirmar. Uma nova base tributável, uma alíquota maior ou uma retenção adicional tende a gerar receita imediata.

O problema é que a economia não termina no primeiro ano de arrecadação.

No curto prazo, o Estado pode arrecadar mais. No longo prazo, pode destruir parte da base que arrecada. No curto prazo, a planilha fiscal melhora. No longo prazo, o país pode se tornar menos atrativo para o investimento. No curto prazo, a política comemora justiça fiscal. No longo prazo, a sociedade pode colher menos empresas, menos produtividade e menos prosperidade.

Essa é a diferença entre visão fiscal e visão econômica.

A visão fiscal olha a receita prevista. A visão econômica olha o comportamento humano. A visão fiscal pergunta quanto entra no caixa público. A visão econômica pergunta o que o empresário deixará de fazer, o que o investidor deixará de financiar e o que o capital deixará de construir.

A Escola Austríaca é especialmente útil porque nos obriga a olhar para as consequências não visíveis. Ela não se contenta com o efeito imediato. Ela pergunta o que acontece depois.

E depois, quase sempre, vem a adaptação dos agentes econômicos.

Empresas reorganizam estruturas. Investidores reduzem exposição. Famílias patrimoniais buscam proteção. Profissionais de alta renda mudam domicílio fiscal. Capital produtivo migra para ativos defensivos. Projetos de longo prazo perdem atratividade. O país aparenta arrecadar mais, mas começa a perder densidade econômica.

Esse é o imposto invisível: a prosperidade que deixa de existir.



Hayek e o erro de ignorar o conhecimento disperso

Friedrich Hayek mostrou que o conhecimento econômico está disperso na sociedade. Nenhum planejador central sabe tudo o que milhões de indivíduos sabem em suas circunstâncias particulares. O empresário conhece seu mercado. O investidor conhece sua tolerância ao risco. O produtor conhece seu custo. O consumidor conhece sua preferência. A família empresária conhece sua história, seus conflitos, sua sucessão e sua capacidade real de reinvestimento.

Quando o Estado eleva a carga tributária de modo amplo e recorrente, ele age como se pudesse capturar recursos sem alterar substancialmente a ordem econômica que produz esses recursos. Esse é o erro. A economia não é uma máquina parada. É um processo vivo de coordenação.

Cada imposto novo, cada aumento de alíquota, cada obrigação acessória, cada incerteza regulatória e cada complexidade fiscal altera milhões de decisões particulares.

O governo pode calcular a arrecadação esperada. Mas não consegue calcular integralmente as oportunidades que serão abandonadas, os riscos que deixarão de ser assumidos, os investimentos que serão adiados e o capital que será deslocado.

Esse conhecimento está disperso. Está na mesa do empresário que cancela uma expansão. Está no investidor que decide dolarizar parte do patrimônio. Está na família que posterga uma sucessão. Está no empreendedor que desiste de formalizar. Está no acionista que deixa de aportar em uma companhia. Está no incorporador que percebe que o retorno líquido deixou de compensar o risco.

O erro de uma política tributária pesada é acreditar que o capital continuará se comportando do mesmo modo depois de ser mais tributado.

Não continuará.



IBS, CBS e a promessa de simplificação

No campo do consumo, a Lei Complementar nº 214/2025 instituiu o IBS, a CBS e o Imposto Seletivo, dentro da reforma tributária. A promessa é simplificar a tributação sobre bens e serviços, substituindo parte relevante do sistema anterior por uma lógica mais uniforme.

Em tese, simplificação é desejável. O Brasil construiu um dos sistemas tributários mais complexos do mundo, obrigando empresas a desperdiçarem enorme energia com interpretação, apuração, créditos, disputas, obrigações acessórias e insegurança jurídica.

Mas simplificação formal não significa, por si só, liberdade econômica. Também não significa automaticamente menor carga, menor custo de conformidade ou maior previsibilidade no período de transição.

O empresário prudente sabe que reformas tributárias no Brasil raramente chegam sem custo de adaptação. Sistemas precisam ser alterados. Contratos precisam ser revistos. Preços precisam ser recalculados. Margens precisam ser protegidas. Obrigações antigas e novas podem conviver durante anos. E, enquanto isso, o custo da transição recai sobre quem produz.

A promessa de simplificar não pode servir como licença para aumentar o peso real sobre a economia.

Uma reforma tributária verdadeiramente pró-prosperidade deveria perseguir três objetivos simultâneos: simplicidade, previsibilidade e menor punição ao capital produtivo. Sem esses três elementos, o país apenas muda o nome dos tributos, mas preserva a mentalidade arrecadatória que sufoca a atividade econômica.



Menger, valor e a arrogância fiscal

Carl Menger, fundador da Escola Austríaca, mostrou que o valor não é determinado por decretos, intenções políticas ou planilhas estatais. O valor nasce da utilidade subjetiva atribuída pelos indivíduos aos bens, serviços e recursos disponíveis.

Essa noção é fundamental para compreender o problema tributário. O Estado pode determinar alíquotas, bases de cálculo e obrigações. Mas não pode decretar que o investidor continuará atribuindo o mesmo valor ao risco brasileiro depois de sucessivos aumentos de carga. Não pode decretar que o empresário continuará expandindo sua empresa com a mesma disposição. Não pode decretar que o capital permanecerá no país apenas por "patriotismo fiscal".

O valor de investir em uma economia depende da percepção de retorno, risco e confiança.

Quando o ambiente se torna fiscalmente hostil, o valor subjetivo de permanecer exposto ao país diminui. O investidor passa a exigir mais prêmio. O empresário passa a exigir mais margem. O credor passa a exigir mais juros. O capital estrangeiro passa a exigir mais proteção. O empreendedor local passa a exigir mais cautela.

No fim, todos cobram do país o custo da insegurança.

A arrogância fiscal está em imaginar que a riqueza pode ser constantemente extraída sem prejudicar sua fonte. Mas riqueza não é minério inesgotável. Riqueza é processo. É confiança acumulada. É poupança transformada em capital. É tempo. É reputação. É trabalho coordenado. É decisão empresarial sob risco.

Quando se tributa demais a fonte da prosperidade, compromete-se a própria prosperidade.



Kirzner e o empreendedor sufocado

Israel Kirzner via o empreendedor como alguém atento às oportunidades. Ele percebe desequilíbrios, identifica possibilidades, corrige erros, antecipa demandas e cria valor onde outros ainda não enxergaram.

Esse empreendedor precisa de liberdade para agir. Precisa de margem para errar. Precisa de incentivo para arriscar. Precisa de previsibilidade para calcular. Precisa de lucro como sinal de acerto e como combustível para reinvestir.

Quando a carga tributária se torna elevada demais, o empreendedor deixa de olhar apenas para o mercado e passa a olhar excessivamente para o Estado. 

Em vez de perguntar “onde está a oportunidade?”, ele passa a perguntar “qual será o custo fiscal?”. Em vez de pensar “como posso crescer?”, passa a pensar “como posso me proteger?”. 

Em vez de concentrar energia no consumidor, precisa concentrar energia no cumprimento de exigências.

Esse deslocamento empobrece a sociedade.

Uma economia vibrante precisa de empreendedores voltados à criação de valor, não de empresários permanentemente ocupados em sobreviver ao sistema tributário.

O Brasil tem talento empresarial. Tem mercado. Tem criatividade. Tem capacidade produtiva. Mas insiste em construir obstáculos que tornam a atividade econômica mais difícil do que deveria ser.

O país cobra caro de quem tenta produzir.



O falso conflito entre justiça social e formação de capital

É comum defender aumentos de tributação sobre "altas rendas" e capital em nome da justiça social. A preocupação com desigualdade é legítima. Nenhuma sociedade saudável deve ignorar pobreza, exclusão, baixa mobilidade social e falta de oportunidades.

O problema está em confundir justiça com punição ao capital produtivo.

Uma sociedade não reduz pobreza destruindo os incentivos que criam emprego, renda e investimento. Ela reduz pobreza quando amplia produtividade, melhora educação, fortalece segurança jurídica, estimula empreendedorismo, reduz barreiras de entrada, protege contratos, preserva moeda e permite que o capital se multiplique em atividades úteis.

Distribuir melhor pode ser necessário. Mas produzir mais é indispensável.

justiça social

Sem formação de capital, a justiça social vira apenas disputa por escassez. Sem investimento, não há aumento real de salários. Sem produtividade, não há crescimento sustentável. Sem empresas fortes, não há empregos qualificados em escala. Sem poupança, não há futuro econômico.

A Escola Austríaca recorda que a prosperidade não nasce da intenção política, mas da coordenação entre poupança, capital, trabalho, preços, conhecimento e liberdade.

O Estado pode redistribuir parte da riqueza existente. Mas somente a sociedade produtiva cria riqueza nova.



O Brasil perde quando o capital deixa de confiar

O Brasil não precisa apenas arrecadar. Precisa inspirar confiança.

Confiança é o ativo invisível que sustenta investimentos de longo prazo. Sem confiança, o capital encurta o horizonte. Sem confiança, o empresário deixa de expandir. Sem confiança, o investidor exige liquidez. Sem confiança, a família patrimonial protege mais e investe menos. Sem confiança, a economia entra em modo defensivo.

A carga tributária elevada contribui para esse ambiente defensivo. Ela sinaliza que o sucesso será crescentemente capturado. Sinaliza que o planejamento de longo prazo estará sempre sujeito a novas necessidades fiscais. Sinaliza que a formação de patrimônio será tolerada apenas enquanto puder ser tributada em novas camadas.

O resultado é uma economia que vive abaixo de seu potencial.

Empresários brasileiros não são menos capazes que empresários de outras nações. Investidores brasileiros não são menos racionais. Famílias empresárias brasileiras não são menos disciplinadas. O problema é que todos operam em um ambiente que frequentemente pune a prudência, tributa a acumulação, encarece a formalidade e dificulta a continuidade.

No longo prazo, esse modelo empobrece a nação.

Não necessariamente por uma ruptura visível. Mas por uma lenta perda de vigor. Menos projetos. Menos reinvestimento. Menos confiança. Menos inovação. Menos capital paciente. Menos liberdade para empreender. Menos disposição para permanecer.

O Brasil não perde apenas quando empresas fecham. Perde também quando empresas deixam de nascer, quando investimentos deixam de vir e quando patrimônios produtivos passam a buscar proteção fora da economia real brasileira.



Conclusão: o imposto alto cobra duas vezes

O imposto alto cobra primeiro no caixa. Depois cobra na prosperidade que não veio.

Cobra na guia recolhida, mas também no investimento adiado. Cobra no dividendo tributado, mas também no capital que deixa de ser reinvestido. Cobra no JCP mais onerado, mas também na menor atratividade das empresas. Cobra no consumo, mas também na margem empresarial comprimida. Cobra na estrutura patrimonial, mas também na perda de confiança de quem pensa no longo prazo.

A discussão tributária brasileira precisa sair da superfície. Não basta perguntar quanto o governo arrecadará a mais. É preciso perguntar quanto o país deixará de produzir por tornar o capital mais desconfiado, mais defensivo e mais distante da economia real.

A Escola Austríaca nos ajuda a enxergar essa realidade porque coloca a ação humana no centro da análise. Antes da arrecadação, existe o indivíduo que trabalha. Antes do dividendo, existe o empresário que arrisca. Antes do patrimônio, existe poupança acumulada. Antes da empresa, existe decisão. Antes da riqueza, existe liberdade.

Quando uma sociedade tributa excessivamente quem forma capital, ela pode até financiar o presente. Mas compromete o futuro.

O Brasil precisa compreender que prosperidade não nasce de unanimidade política, nem de engenharia fiscal, nem de novas camadas tributárias. Prosperidade nasce quando pessoas livres podem poupar, investir, empreender, calcular, errar, acertar e permanecer produtivas sob regras estáveis.

Uma nação não se torna rica apenas arrecadando mais. Torna-se rica quando cria condições para que o capital produtivo permaneça, respire e se multiplique.

Bom trabalho e grande abraço.

Rafael José Pôncio é economista, administrador, contabilista, escritor e empresário. Atua com reflexão estratégica sobre estrutura patrimonial, governança, sucessão e organização decisória em empresas familiares.




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quinta-feira, 14 de maio de 2026

O agente empreendedor e as virtudes da oportunidade

O agente empreendedor e as virtudes da oportunidade

Entenda as virtudes que sustentam a busca de oportunidades no empreendedorismo com prudência, coragem, critério e responsabilidade.


O agente empreendedor e as virtudes da oportunidade

Fala-se muito em oportunidade no mundo dos negócios, mas nem sempre se reflete com a devida profundidade sobre a qualidade moral e intelectual de quem sabe percebê-la. Há quem trate a oportunidade como se fosse um "golpe de sorte", um acaso favorável ou uma janela puramente externa que se abre diante de alguém suficientemente rápido. Essa visão, embora popular, é limitada. Na prática, a oportunidade raramente se entrega por inteiro a quem apenas corre. Ela costuma favorecer quem desenvolveu certas disposições interiores que lhe permitem enxergar melhor, julgar melhor e agir melhor.

É nesse ponto que a figura do agente empreendedor merece ser compreendida de maneira mais elevada. O empreendedor não é apenas alguém que cria empresa, assume risco ou busca lucro. Ele é, antes de tudo, um agente humano que se move dentro da realidade concreta, interpreta sinais, decide sob incerteza e transforma possibilidades em ação organizada. Por isso, sua atuação não depende somente de técnica, capital ou ambição. Ela depende também de virtudes.

Essa leitura é importante porque devolve ao empreendedorismo uma dimensão mais séria e mais humana. O problema de muitos discursos atuais é que eles exaltam a ousadia, mas desprezam a prudência; celebram a velocidade, mas ignoram o critério; admiram o crescimento, mas silenciam sobre a responsabilidade. O resultado costuma ser uma visão mutilada do ato de empreender, como se bastasse desejar muito, agir rápido e tolerar qualquer custo moral em nome do sucesso.

Mas a construção sólida de oportunidades exige mais do que impulso. Exige formação interior. Exige combinação de qualidades. Exige, em suma, virtudes que orientem a inteligência prática do empreendedor.

A seguir, é possível observar seis pares de virtudes especialmente relevantes para a busca de oportunidades no campo empresarial.


Iniciativa e prudência

A primeira combinação é central. Iniciativa sem prudência pode produzir precipitação. Prudência sem iniciativa pode gerar estagnação. O agente empreendedor precisa das duas.

A iniciativa é aquilo que rompe a inércia. É a disposição para sair do conforto, testar caminhos, abrir conversas, estudar novas frentes, propor movimentos e não permanecer prisioneiro da passividade. Em mercados dinâmicos, muitos perdem espaço não porque lhes falte capacidade, mas porque lhes sobra espera. Deixam a oportunidade passar enquanto aguardam um cenário perfeito que quase nunca chega.

Mas a iniciativa, por si só, não basta. Há pessoas muito ativas que confundem movimento com direção. Agem bastante, experimentam muito, decidem rápido, porém sem leitura adequada do contexto. É aqui que entra a prudência. Prudência não é medo. Prudência é inteligência aplicada à ação. É a capacidade de avaliar circunstâncias, pesar riscos, considerar consequências e distinguir entre impulso momentâneo e oportunidade real.

Na persona do empreendedor maduro, a iniciativa faz começar; a prudência faz escolher. Essa combinação preserva a energia sem sacrificar o critério. Ela impede tanto a covardia inercial quanto a aventura impensada. Em termos humanos, trata-se de aprender a agir sem se atirar e de refletir sem se paralisar. É justamente esse equilíbrio que dá dignidade e solidez à ação empreendedora.


Atenção e curiosidade

Muitas oportunidades não chegam em forma de anúncio. Elas surgem discretamente, escondidas em mudanças de comportamento, lacunas de mercado, dores mal resolvidas, ineficiências aceitas como normais ou padrões sociais ainda pouco notados. Por isso, o empreendedor que deseja encontrar oportunidades precisa cultivar atenção e curiosidade.

A atenção é a capacidade de perceber o real sem anestesia. É olhar com presença. É notar o que os outros ignoram por excesso de hábito, cansaço ou superficialidade. Em muitos casos, a oportunidade nasce exatamente daquilo que sempre esteve diante de todos, mas que poucos observaram com profundidade. Um bairro que muda de perfil, um consumidor que altera seu padrão de compra, uma empresa que terceiriza uma necessidade recorrente, um setor que começa a demandar mais confiança do que preço: tudo isso pode carregar sinais.

A curiosidade, por sua vez, aprofunda a atenção. Quem é curioso não se contenta com a primeira aparência. Pergunta, investiga, compara, relaciona, busca entender. Em vez de apenas ver, procura compreender. E compreender é decisivo no mundo empresarial, porque a boa oportunidade não está somente no que aparece, mas no que se revela a quem persiste em examinar melhor.

“No campo das oportunidades, nem sempre enxerga mais quem olha primeiro, mas quase sempre quem aprendeu a olhar com profundidade.”

Essa dupla tem uma dignidade especial porque se opõe à distração apressada do nosso tempo. Vivemos cercados por excesso de estímulos e escassez de contemplação. Nesse ambiente, a atenção se tornou rara, e a curiosidade profunda, ainda mais. O agente empreendedor que preserva essas qualidades passa a enxergar onde outros apenas reagem. E quem enxerga melhor, normalmente decide melhor. A oportunidade, então, deixa de ser um acaso e passa a ser, em grande medida, fruto de percepção treinada.


Coragem e critério

Empreender implica enfrentar incerteza. Nem sempre os dados estarão completos, nem sempre o ambiente estará maduro, nem sempre haverá aplauso prévio. Muitas oportunidades exigem decisão antes do conforto. Por isso, a coragem é indispensável.

Sem coragem, boas possibilidades são abandonadas ainda no estágio da ideia. O medo do erro, da exposição, da rejeição, da perda financeira ou da crítica alheia acaba neutralizando a ação. Há projetos que morrem não porque fossem inviáveis, mas porque ninguém teve disposição interior para assumi-los. Nesse sentido, a coragem é uma virtude de passagem. Ela ajuda o empreendedor a sair do campo da intenção e entrar no campo da execução.

Coragem e critério

Mas a coragem também precisa de companhia. Quando separada do critério, pode transformar-se em temeridade. O critério é a capacidade de filtrar, estabelecer parâmetros, definir exigências mínimas e não se encantar facilmente com qualquer promessa de ganho. Ele protege o empreendedor contra o deslumbramento, contra a euforia de curto prazo e contra a narrativa sedutora de negócios que parecem brilhantes apenas porque foram apresentados com entusiasmo.

O verdadeiro agente empreendedor não é o que ignora o risco, mas o que se dispõe a enfrentá-lo com lucidez. Coragem não significa avançar de olhos fechados. Significa aceitar que:

nem toda decisão virá cercada de garantias, sem por isso desprezar análise, experiência, reputação e consistência.

Essa combinação é profundamente humanista porque impede dois extremos degradantes: a vida encolhida pelo medo e a vida desordenada pelo impulso. O empreendedor digno não é o covarde, nem o aventureiro. É a pessoa capaz de avançar com firmeza porque aprendeu a medir o terreno sem se tornar escravo dele.


Diligência e constância

Há pessoas que identificam oportunidades, mas não as trabalham. Intuem um bom caminho, enxergam um nicho, percebem uma demanda, iniciam um movimento e depois esfriam. Nesses casos, o fracasso não decorre da falta de visão, mas da falta de perseverança operativa. É por isso que diligência e constância são virtudes essenciais.

A diligência traduz zelo, prontidão, aplicação e senso de dever bem executado. O empreendedor diligente não trata a oportunidade com relaxamento. Ele volta ao assunto, levanta informações, faz contatos, organiza etapas, acompanha detalhes, corrige falhas e respeita o trabalho concreto que separa a intenção do resultado. É alguém que entende que boas ideias sem esforço sustentado raramente produzem valor.

Já a constância protege contra a descontinuidade emocional. Nem todo ciclo de construção oferece recompensa rápida. Muitos projetos exigem repetição, paciência, manutenção de ritmo e capacidade de prosseguir mesmo quando o entusiasmo inicial diminui. A constância dá espessura ao esforço. Ela impede que o agente empreendedor se torne dependente da excitação do começo.

Essas virtudes têm enorme relevância prática porque o mercado costuma premiar menos o brilho episódico e mais a seriedade sustentada. Oportunidade não é apenas descobrir uma chance. É honrar a chance com trabalho disciplinado. É justamente nesse ponto que o discurso romântico sobre empreendedorismo precisa ser corrigido. O sucesso durável raramente nasce de genialidade isolada. Ele costuma nascer de esforço metódico, repetido e bem orientado.

Humanamente, diligência e constância ensinam uma verdade incômoda, porém libertadora: não basta desejar crescer; é preciso tornar-se capaz de sustentar o crescimento. E isso exige caráter trabalhado.


Discernimento e timing

Uma oportunidade pode ser boa em si e ainda assim fracassar por causa do momento. Pode haver valor na ideia, qualidade no ativo, mérito no serviço ou necessidade real no mercado, mas sem aderência temporal suficiente para a execução. É por isso que discernimento e timing formam outra dupla decisiva.

O discernimento é a faculdade de distinguir. No campo empreendedor, ele permite separar aparência de substância, urgência de ansiedade, moda de tendência, promessa de viabilidade. O discernimento protege contra a confusão, especialmente em tempos em que tudo parece extraordinário por alguns dias. Ele ajuda a perguntar: isso é realmente consistente? Há base para sustentar esse movimento? Trata-se de uma oportunidade ou apenas de um ruído bem embalado?

Discernimento e timing

O timing, por sua vez, diz respeito ao senso de ocasião. Saber a hora é quase tão importante quanto saber o quê. Há negócios que exigem antecipação; outros pedem espera. Há contextos em que o pioneirismo gera vantagem; em outros, gera desgaste educativo em favor dos concorrentes. O tempo certo não é uma superstição. É uma leitura racional das condições objetivas e subjetivas que envolvem a decisão.

No empreendedorismo, erros de tempo podem custar tanto quanto erros de conteúdo. Entrar cedo demais pode consumir caixa, energia e credibilidade. Entrar tarde demais pode significar irrelevância. Permanecer tempo demais em algo esgotado também pode ser uma forma de cegueira.

Essa combinação devolve sobriedade ao ato de decidir. O agente empreendedor discernente e atento ao timing não se move apenas porque algo é possível. Move-se porque percebe maturidade suficiente para a ação. Em linguagem humanista, isso significa reconhecer que a realidade possui ritmos e que a sabedoria prática consiste, muitas vezes, em não violentar o tempo nem se atrasar diante dele.


Ambição e responsabilidade

Talvez uma das tensões mais delicadas do empreendedorismo esteja aqui. A ambição pode ser nobre ou degradante. Em sua forma elevada, ela representa desejo de crescimento, expansão, construção e realização. Em sua forma corrompida, converte-se em voracidade, vaidade e indiferença moral quanto aos meios utilizados. Por isso, a ambição precisa ser acompanhada de responsabilidade.

A responsabilidade é o freio interior que recorda ao empreendedor que toda decisão produz efeitos sobre pessoas, reputações, patrimônios, famílias, contratos e continuidade institucional. Ela impede que a busca por resultado se torne uma licença para desordem ética. Oportunidade verdadeira não é apenas a que promete ganho. É a que pode ser desenvolvida sem destruição moral do caminho.

Essa reflexão é especialmente importante porque o ambiente contemporâneo, em vários momentos, glamouriza a expansão a qualquer custo. Crescer rápido, dominar mercado, capturar valor, multiplicar retorno: tudo isso pode soar admirável, mas não é suficiente para qualificar moralmente um empreendimento. Quando a ambição se desconecta da responsabilidade, a organização pode até avançar por algum tempo, mas carrega internamente os germes de sua própria deterioração.

Crescer sem consciência pode impressionar por um tempo, mas quase sempre cobra caro no caráter e na continuidade.

Por outro lado, também seria um erro demonizar a ambição. O empreendedor sem ambição tende a se acomodar, desperdiçar capacidade e subutilizar possibilidades legítimas de criação de valor. A questão não está em desejar crescer, mas em perguntar que tipo de crescimento se deseja construir e sob quais princípios ele será sustentado.

Do ponto de vista humanista, essa é uma das lições mais elevadas do mundo empresarial: o crescimento digno não humilha a consciência. A responsabilidade não reduz a ambição; ela a purifica. Faz com que o empreendedor queira subir sem perder o eixo, expandir sem corromper a base e prosperar sem se divorciar do dever.


A oportunidade como prova de formação interior

Esses seis pares de virtudes mostram que a busca de oportunidades não é um ato puramente externo. Antes de ser uma questão de mercado, ela é também uma questão de formação humana. O empreendedor encontra, escolhe e desenvolve oportunidades na medida em que amadurece interiormente para isso.

Essa constatação é importante porque recoloca o debate em um plano mais sério. Nem toda limitação empreendedora decorre de falta de capital, informação ou network. Muitas vezes, o obstáculo está em falhas de caráter prático: falta prudência para escolher, atenção para perceber, coragem para avançar, constância para sustentar, discernimento para separar o essencial do acessório e responsabilidade para não se perder no próprio crescimento.

Por isso, a figura do agente empreendedor merece ser tratada com maior profundidade. Não como herói de frases fáceis, nem como mero executor de oportunidades de mercado, mas como alguém cuja ação econômica está profundamente ligada à qualidade de sua formação moral e intelectual. Oportunidades existem no mundo; mas só se tornam fecundas nas mãos de quem aprendeu a merecê-las pelo modo como observa, decide e age.

Em última análise, empreender bem é mais do que ganhar espaço. É tornar-se uma pessoa capaz de sustentar, com inteligência e caráter, o peso das oportunidades que a realidade oferece.

Bom trabalho e grande abraço.
Rafael José Pôncio, PROF. ADM.



        Reprodução permitida, desde que mencionado o Nome do Autor e o link fonte.       

terça-feira, 5 de maio de 2026

Jesus Norberto Gomes: O guaraná que deu sabor ao Maranhão

Jesus Norberto Gomes: O guaraná que deu sabor ao Maranhão

Jesus Norberto Gomes foi o farmacêutico que criou o Guaraná Jesus, símbolo cultural do Maranhão e sucesso de inovação brasileira.

Introdução

Muito antes das estratégias de marketing modernas, um homem simples do Maranhão revolucionou o mercado de bebidas com criatividade, ciência e paixão. Jesus Norberto Gomes, farmacêutico e inventor, criou em 1927 o famoso Guaraná Jesus, um refrigerante que se tornaria não apenas símbolo local, mas também patrimônio afetivo e cultural do povo maranhense.


O nascimento de uma fórmula icônica

Jesus Norberto Gomes era um farmacêutico autodidata, dedicado ao estudo das ervas e extratos naturais. Trabalhando em sua farmácia em São Luís do Maranhão, formulou inicialmente um remédio à base de guaraná.

O sabor adocicado e aroma envolvente da fórmula agradaram tanto que rapidamente passou a ser consumida como bebida refrescante. Assim nasceu o Guaraná Jesus — de forma espontânea, criativa e inovadora.


Empreendedorismo com alma e identidade local

Mais que uma bebida, o Guaraná Jesus se tornou um símbolo regional. Com sua coloração rosada e sabor inconfundível, a marca conquistou o povo do Maranhão e passou a ser um produto de orgulho identitário.

Jesus Gomes se destacou como empreendedor não apenas por criar um produto novo, mas por valorizar a cultura e os ingredientes locais, transformando um experimento artesanal em uma marca lendária.

Guarana Jesus


Virtudes e características empreendedoras de Jesus Norberto Gomes

Criatividade aplicada à ciência – Uniu conhecimentos farmacêuticos e sensoriais para criar um produto inovador.

Espírito regionalista com visão de mercado – Soube valorizar o sabor da terra e transformar isso em identidade de marca.

Persistência artesanal – A fórmula passou por testes e ajustes até atingir o padrão que encantava paladares.

Humildade e legado popular – Nunca buscou fama nacional, mas sua criação extrapolou fronteiras e virou referência.

Pioneirismo na diferenciação – Em uma época sem propaganda moderna, criou um produto com identidade visual, aroma e cor únicos.

Com sabor único e alma criativa, Jesus Norberto Gomes transformou uma fórmula em legado.


Legado eterno no Maranhão e além

Décadas após sua criação, o Guaraná Jesus permanece vivo — agora sob a administração da Coca-Cola Company, mas com o compromisso de manter a fórmula e essência originais.

Mesmo com a aquisição por um conglomerado empresarial gigante global, o produto continua sendo produzido exclusivamente no Maranhão, onde é mais vendido que qualquer outro refrigerante, inclusive a própria Coca-Cola.

Jesus Norberto Gomes se foi, mas sua fórmula, sua visão e seu nome estampado em cada rótulo continuam a refrescar memórias e unir gerações.


Lições de Jesus Norberto Gomes para os empreendedores de hoje

📌 Valorize a cultura e a identidade local: é possível transformar raízes em negócios.

📌 A simplicidade aliada à ciência pode criar produtos duradouros.

📌 Inovar não é só criar algo novo, mas algo único.

📌 Marcas autênticas nascem da verdade e do afeto com seu público.

📌 Um legado pode ser construído com humildade e excelência.


Curiosidades

  • O Guaraná Jesus tem coloração rosa, sabor de cravo, canela e baunilha — fórmula original permanece guardada.

  • É considerado “a bebida dos maranhenses” e tema de campanhas publicitárias nacionais.

  • Ainda hoje, muitos chamam o refrigerante carinhosamente de “o guaraná do Maranhão”.

  • A marca é reconhecida por preservar a história do fundador mesmo após a venda à Coca-Cola.


Conclusão

Jesus Norberto Gomes não inventou apenas uma bebida — ele deu sabor à cultura de um povo. Sua história inspira qualquer empreendedor que busca inovar com propósito, respeito à identidade e amor pelo que faz. Seu nome está eternizado em cada lata, cada gole e cada memória feliz que o Guaraná Jesus proporciona.



Inspire-se com uma história real que emociona e ensina.

A trajetória de Jesus Norberto Gomes, o homem simples que criou o Guaraná Jesus e marcou a identidade de um povo, está registrada com sensibilidade no livro Os Empreendedores que Mudaram o Brasil – Volume 2.

Publicado pela Editora Labrador e escrito pelo autor Rafael José Pôncio, o livro reúne histórias que tocam a alma e provam que o verdadeiro sucesso nasce do amor pelo que se faz.

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quinta-feira, 19 de março de 2026

Governança Corporativa: o que é e por que importa

Governança Corporativa: o que é e por que importa

Entenda o que é governança corporativa e por que ela sustenta confiança, limites ao poder, sucessão e continuidade nas empresas.

Muito além de conselhos, regras e organogramas

Fala-se muito em governança corporativa, mas nem sempre com a profundidade necessária. Em muitos textos, ela aparece como um conjunto de conselhos, comitês, normas internas, atas, controles e estruturas decisórias. Tudo isso faz parte do tema, mas ainda não alcança sua essência. A verdadeira questão não está apenas em saber quais órgãos existem dentro de uma empresa, e sim em compreender como o poder é exercido, limitado, fiscalizado e legitimado ao longo do tempo.

Na prática, governança corporativa é o arranjo que organiza as relações entre propriedade, direção, controle e responsabilidade dentro de uma organização. Ela define quem pode decidir, de que modo decide, a quem responde, quais limites não deve ultrapassar e como os interesses relevantes devem ser tratados. Essa definição, embora técnica, só ganha vida quando percebemos que nenhuma empresa madura pode depender exclusivamente da vontade de quem manda. Toda organização tem poder. O problema começa quando esse poder não aceita freios, critérios e deveres proporcionais.

É justamente por isso que a governança corporativa importa tanto. Ela não existe para enfeitar relatórios, nem para dar aparência sofisticada a negócios desorganizados por dentro. Sua função mais nobre é impedir que a empresa se torne refém da arbitrariedade, do improviso permanente, do personalismo excessivo e das conveniências de ocasião.

O que é, afinal, governança corporativa

De forma clara, governança corporativa é o sistema pelo qual a empresa é dirigida, monitorada e orientada. Esse sistema envolve princípios, critérios, estruturas, responsabilidades e processos que procuram dar ordem ao exercício do poder. Em uma organização sem governança, decisões relevantes tendem a depender demais de pessoas específicas. Em uma organização com governança mais madura, as decisões passam a depender menos do humor de um indivíduo e mais de parâmetros institucionais.

Isso não significa engessar a empresa. Também não significa afastar o empreendedor, o fundador ou o controlador das decisões importantes. Significa, antes, reconhecer que a continuidade da organização exige algo maior do que força pessoal, carisma ou capacidade de comando. Exige previsibilidade, confiança, clareza de papéis e respeito por limites.

Essa compreensão muda completamente o peso do tema. Governança corporativa não é um luxo reservado a grandes companhias abertas. Ela é útil sempre que existe patrimônio a preservar, relações a equilibrar, sucessão a preparar, riscos a administrar e poder a conter. Quanto mais a empresa cresce, mais esse assunto ganha relevância. Mas mesmo negócios menores já sofrem quando não sabem distinguir amizade de critério, hierarquia de abuso, autonomia de descontrole ou liderança de centralização absoluta. Esse é o tipo de confusão que parece pequeno no começo, mas costuma custar caro mais adiante.

Por que muita gente confunde governança com burocracia

Uma das críticas mais frequentes é a ideia de que governança corporativa cria lentidão, excesso de formalidade e distância entre quem decide e quem executa. Essa leitura, embora comum, costuma nascer de uma experiência ruim com estruturas mal desenhadas. Quando a governança vira mera papelada, ritual sem vida ou formalismo sem convicção, ela realmente perde valor. Mas isso não é defeito da governança em si. É defeito da má aplicação.

A boa governança não atrapalha a empresa. Ela ajuda a empresa a não se atrapalhar consigo mesma. Em vez de criar barreiras inúteis, ela organiza o que antes estava confuso. Em vez de multiplicar ruídos, ela torna mais claras as responsabilidades. Em vez de enfraquecer a liderança, ela a torna mais respeitável, porque a liderança deixa de parecer uma força sem controle e passa a operar dentro de um ambiente de legitimidade.

Toda empresa que cresce sem critérios suficientes corre um risco silencioso: continuar funcionando por algum tempo, mas com desordens internas cada vez mais profundas. A decisão parece rápida, o comando parece forte, o resultado até pode aparecer. Ainda assim, por trás da eficiência aparente, vão se acumulando conflitos mal tratados, expectativas truncadas, dependência excessiva de pessoas-chave e falta de preparo para o futuro. Esse é um dos motivos pelos quais a governança corporativa precisa ser entendida com maturidade e não como burocracia decorativa.

A governança como disciplina do poder

Na minha visão, este é o ponto mais importante de todos: governança corporativa é a disciplina do poder dentro da empresa. Ela existe para lembrar que o poder econômico, por mais legítimo que seja em sua origem, não deve se converter em vontade sem freio. Quem controla patrimônio, pessoas, decisões e destino empresarial precisa aceitar critérios que o transcendam.

A governança como disciplina do poder

Essa é uma verdade desconfortável para ambientes excessivamente personalistas. Há empresas em que tudo parece girar em torno da vontade de uma única figura. Em alguns casos, essa concentração funciona por anos. O fundador conhece o negócio, domina os detalhes, resolve com rapidez e mantém o comando de forma quase intuitiva. O problema surge quando a empresa cresce, a complexidade aumenta e o modelo continua preso à lógica de que uma só pessoa vê tudo, decide tudo e corrige tudo. Nesse momento, a ausência de governança corporativa deixa de ser detalhe administrativo e passa a ser fragilidade estrutural.

O valor moral da governança está justamente aí. Ela reconhece que poder sem critério tende a abusar, ainda que de forma sutil. Tende a favorecer os próximos, ouvir menos quem diverge, confundir interesse da empresa com interesse pessoal e justificar o injustificável em nome da autoridade. A governança não elimina o poder. Ela o civiliza. Não destrói a liderança. Ela a submete a deveres compatíveis com sua influência. Esse é um dos aspectos mais humanos do tema, porque toca numa realidade universal: quando ninguém limita o poder, o poder tende a se dilatar além do que deveria.

Onde a falta de governança aparece de verdade

A ausência de governança corporativa raramente aparece primeiro nos discursos. Ela aparece nas relações. Surge quando sócios já não sabem com clareza o alcance de seus direitos e deveres. Surge quando a sucessão é tratada tarde demais. Surge quando conselhos existem apenas no papel. Surge quando executivos não sabem até onde vai sua autonomia. Surge quando há informações relevantes demais circulando de maneira seletiva. Surge quando o controlador confunde liderança legítima com imunidade à crítica.

Em empresas familiares, isso fica ainda mais sensível. O afeto, a história comum e a proximidade pessoal podem enriquecer a empresa, mas também podem embaralhar critérios de mérito, responsabilidade e preparo. O herdeiro próximo nem sempre é o mais apto. O sócio antigo nem sempre é o mais equilibrado. O executivo competente nem sempre é o mais ouvido. Quando essas distorções se acumulam, a empresa pode até continuar operando, mas começa a perder justiça interna.

É nesse ponto que a governança corporativa revela seu valor prático. Ela ajuda a separar papéis, esclarecer expectativas, criar fóruns adequados para decisão e reduzir a influência destrutiva de improvisos, favoritismos e ambiguidades. Não se trata de tornar a empresa fria. Trata-se de torná-la justa o bastante para não depender apenas de boa vontade informal. Organizações duráveis não vivem só de confiança pessoal. Elas precisam de confiança institucional.

Governança, confiança e continuidade

Nenhuma empresa atravessa o tempo apenas com ambição. É preciso confiança. E confiança não nasce apenas de bons resultados financeiros. Ela nasce também da percepção de que a empresa possui critérios, honra compromissos, respeita limites e trata com seriedade as consequências de suas decisões.

Por isso, a governança corporativa contribui diretamente para a continuidade. Ela reduz a vulnerabilidade da empresa a conflitos entre sócios, rupturas sucessórias, decisões impulsivas e centralizações excessivas. Também fortalece a credibilidade da organização diante de investidores, parceiros, credores, executivos e demais pessoas que se relacionam com ela. Em outras palavras, governança não serve apenas para ordenar o presente. Serve para aumentar a capacidade de permanência.

Governança, confiança e continuidade

Esse ponto merece destaque porque muita gente ainda associa longevidade empresarial apenas a estratégia, mercado e execução. Tudo isso é indispensável, mas não basta. Empresas fracassam, às vezes, não por falta de produto ou de receita, mas por incapacidade de organizar o poder com justiça e racionalidade. Crescem sem freios, prosperam sem estrutura, acumulam patrimônio sem amadurecer as relações internas. Quando surgem as crises, descobrem tarde demais que eficiência operacional não substitui solidez institucional.

A governança corporativa atua justamente nessa camada menos visível e mais profunda. Ela não promete perfeição. Não elimina conflitos. Não impede totalmente erros humanos. Mas cria condições melhores para que a empresa suporte divergências, transições e pressões sem se desmanchar internamente. E isso, no mundo real, já vale muito.

Por que esse tema importa para qualquer empresa séria

Há quem pense que governança corporativa só interessa a companhias listadas em bolsa, grandes conglomerados ou negócios altamente regulados. Essa visão é limitada. Sempre que existe concentração de poder, patrimônio relevante, necessidade de continuidade ou risco de conflito entre pessoas e interesses, a governança já se torna assunto importante.

Uma empresa pequena pode não precisar da mesma sofisticação estrutural de uma corporação complexa. Mas ainda assim precisa de critérios claros, divisão coerente de funções, registros minimamente organizados, responsabilidade definida e algum método para lidar com decisões sensíveis. O tamanho muda a forma. Não elimina a necessidade.

A verdade é que toda organização séria, mais cedo ou mais tarde, precisa responder a perguntas fundamentais. Quem pode decidir o quê. Quem fiscaliza quem. Como se tratam divergências relevantes. Como se prepara a sucessão. Como se evita que relações pessoais capturem a racionalidade empresarial. Como se preserva a empresa para além da força de uma geração específica. Essas perguntas não pertencem apenas ao universo técnico. Elas pertencem ao universo da prudência.

O sentido mais alto da governança corporativa

No fim, governança corporativa importa porque nenhuma empresa se torna verdadeiramente sólida quando o poder permanece sem forma, sem freio e sem prestação de critérios. Pode haver crescimento, pode haver lucro e pode haver expansão. Ainda assim, sem governança, tudo permanece mais frágil do que parece.

Talvez a melhor forma de resumir o tema seja esta: governança corporativa é a arquitetura moral e prática que ajuda a empresa a continuar existindo sem depender apenas da vontade de quem manda. Ela organiza o poder, limita arbitrariedades, protege relações, melhora a confiança e aumenta a chance de continuidade com legitimidade.

Essa visão é importante porque devolve humanidade ao assunto. Governança não é apenas desenho institucional. É também uma forma de respeito. Respeito pelo patrimônio construído, pelas pessoas impactadas, pelos acordos assumidos, pelos conflitos que precisam de tratamento justo e pelo futuro que não deve ser improvisado.

Empresas admiráveis não são apenas as que crescem. São também as que aprendem a impor ordem ao próprio poder. E onde isso acontece, a governança corporativa deixa de ser formalidade e passa a ser maturidade.

Bom trabalho e grande abraço,

Rafael José Pôncio
Fundador da BRJP Advisory




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