segunda-feira, 18 de maio de 2015

Como ser um empreendedor organizado

Organização não significa controlar tudo. Significa criar ordem suficiente para que prioridades, decisões e responsabilidades não fiquem à mercê da urgência.

Como ser um empreendedor organizado: a disciplina que sustenta a boa gestão

Empreender costuma ser associado à iniciativa, à coragem, à capacidade de assumir riscos e à disposição para transformar oportunidades em negócios. Todas essas características são importantes, mas existe uma virtude menos celebrada e, talvez por isso mesmo, frequentemente negligenciada: a organização.

Uma empresa pode nascer da criatividade de seu fundador, crescer pela força comercial de sua equipe e conquistar espaço graças a uma boa oportunidade de mercado. Entretanto, à medida que o negócio se desenvolve, aquilo que inicialmente podia ser administrado de maneira intuitiva passa a exigir método. Mais clientes significam mais compromissos; mais receita traz mais movimentações financeiras; mais funcionários ampliam as responsabilidades; mais patrimônio exige controles; e mais decisões aumentam a possibilidade de erros.

Nesse momento, a organização deixa de ser uma qualidade meramente pessoal e passa a representar uma verdadeira competência administrativa.

Ser organizado não significa manter uma mesa impecável, possuir uma agenda cheia de anotações ou utilizar o aplicativo de produtividade mais recente. Esses recursos podem ajudar, mas representam apenas manifestações exteriores da organização. Em sua essência, organizar significa estabelecer prioridades, definir responsabilidades, preservar informações, criar critérios e determinar uma sequência racional para aquilo que precisa ser realizado.

No ambiente empresarial, organização é a capacidade de colocar cada assunto em seu devido lugar — inclusive mentalmente.

Organização é uma forma de pensar

Existe uma diferença importante entre estar ocupado e estar administrando.

O empreendedor pode trabalhar durante muitas horas, responder dezenas de mensagens, participar de reuniões, resolver problemas de funcionários, acompanhar clientes e terminar o dia com a impressão de ter produzido muito. Ainda assim, é possível que as decisões realmente importantes tenham permanecido intocadas.

A rotina empresarial possui uma característica perigosa: ela produz urgências suficientes para ocupar todo o tempo disponível. Sempre haverá alguma mensagem a responder, algum documento para conferir, alguma pequena pendência operacional ou alguma pessoa aguardando uma decisão.

Se não houver organização, aquilo que aparece primeiro tende a ocupar o lugar daquilo que é mais importante.

É justamente aí que a organização demonstra seu valor. Ela cria uma estrutura mental e operacional capaz de separar urgência de importância, movimento de progresso e atividade de resultado.

O empreendedor organizado não necessariamente trabalha menos, tampouco possui menos problemas. Sua diferença está em saber onde concentrar atenção, quais assuntos precisam de sua participação e quais devem seguir por processos previamente estabelecidos.

Organizar, portanto, também significa escolher.

A desorganização cobra juros invisíveis

A desorganização empresarial raramente aparece no balanço patrimonial com esse nome. Seus efeitos, porém, podem ser encontrados em diversas partes da empresa.

Ela aparece no pagamento feito duas vezes, no contrato que ninguém encontra, no vencimento esquecido, na proposta comercial que não recebeu retorno, na compra desnecessária, na reunião que poderia ter sido evitada, no documento salvo no lugar errado, na informação que ficou exclusivamente na cabeça de uma pessoa e no compromisso assumido que não foi cumprido.

Separadamente, esses acontecimentos podem parecer pequenos. Repetidos durante meses e anos, transformam-se em desperdício de tempo, dinheiro e energia administrativa.

Existe ainda um custo menos perceptível: a perda de confiança.

Uma empresa que frequentemente esquece compromissos, atrasa respostas, perde documentos ou precisa constantemente perguntar novamente aquilo que já deveria saber transmite insegurança. Organização também comunica profissionalismo. Quando alguém cumpre aquilo que prometeu, encontra rapidamente uma informação, respeita prazos e mantém continuidade nas relações, cria previsibilidade.

E previsibilidade é uma das bases da confiança empresarial.

Por isso, a organização não deve ser compreendida somente como instrumento de produtividade. Ela também participa da construção da reputação.

Antes de organizar tarefas, organize prioridades

Uma das causas mais comuns da desorganização não está na falta de ferramentas, mas na ausência de prioridades claras.

Quando tudo parece importante, nada é verdadeiramente prioritário.

O empresário precisa compreender quais assuntos possuem maior impacto sobre a continuidade, a geração de valor e a segurança de seu negócio. Caixa, clientes, pessoas, contratos, obrigações fiscais, investimentos e decisões estratégicas não podem disputar atenção exatamente nas mesmas condições que pequenas demandas operacionais.

Isso exige capacidade de hierarquização.

Há assuntos que precisam ser resolvidos imediatamente. Outros podem esperar. Alguns devem ser delegados. Outros simplesmente não deveriam consumir tempo.

Uma boa pergunta diante de qualquer nova demanda é: qual será a consequência real se eu não tratar desse assunto agora?

Essa reflexão aparentemente simples reduz muito da falsa urgência que domina a rotina das empresas.

Organização exige saber dizer não, adiar conscientemente determinadas atividades e, principalmente, aceitar que o tempo é um recurso limitado. Toda escolha de agenda representa, inevitavelmente, uma renúncia.

Quem decide dedicar duas horas a determinada atividade também decidiu não utilizar essas mesmas duas horas em todas as demais possibilidades.

Por isso, administrar o tempo começa pela administração das prioridades.

A agenda é o orçamento do tempo

Empresas cuidadosas elaboram orçamentos financeiros porque sabem que recursos não podem ser utilizados indiscriminadamente. Curiosamente, muitos empreendedores que jamais aceitariam administrar dinheiro sem algum tipo de controle administram o próprio tempo sem qualquer critério semelhante.

A comparação é útil: a agenda funciona como um orçamento do tempo.

Assim como o dinheiro, o tempo precisa ser destinado conscientemente.

Determinados períodos devem ser reservados para decisões, análise de números, acompanhamento de projetos, reuniões importantes, relacionamento com pessoas e reflexão sobre o futuro da empresa. Se toda a agenda estiver ocupada pela operação corrente, dificilmente haverá espaço para pensar o negócio.

Isso não significa transformar o cotidiano empresarial em uma programação rígida e incapaz de absorver imprevistos. Empresas lidam com acontecimentos inesperados, e o empreendedor precisa conservar margem para eles.

A boa organização não elimina a flexibilidade; ela impede que a exceção se transforme em método permanente.

Uma agenda saudável possui compromissos definidos, espaços de concentração e alguma disponibilidade para aquilo que inevitavelmente surgirá. O problema começa quando o imprevisto passa a comandar todos os dias.

Nesse estágio, o empresário já não administra sua agenda. É administrado por ela.

A empresa não pode depender da memória do proprietário

Nos primeiros anos de um negócio, é relativamente comum que boa parte das informações esteja concentrada no próprio empreendedor. Ele conhece os clientes, lembra-se dos fornecedores, sabe os valores negociados, acompanha pessoalmente os pagamentos e guarda mentalmente boa parte dos compromissos.

Enquanto a estrutura permanece pequena, esse modelo pode funcionar.

O problema aparece quando a empresa cresce.

A memória individual não é um sistema administrativo.

Informações importantes precisam possuir endereço. Contratos devem estar arquivados segundo algum padrão. Obrigações precisam possuir responsáveis e datas. Decisões relevantes precisam ser registradas. Documentos devem poder ser encontrados por outras pessoas autorizadas. Processos recorrentes devem deixar de depender exclusivamente de alguém se lembrar de executá-los.

Quanto maior o negócio, mais perigosa se torna a concentração informal de conhecimento.

Uma organização empresarial madura procura transformar conhecimento individual em conhecimento institucional. Aquilo que é importante para a continuidade da empresa não deveria desaparecer porque determinada pessoa saiu de férias, adoeceu, deixou a organização ou simplesmente não se recordou.

Quando a empresa começa a registrar, padronizar e preservar informações, ela deixa de depender exclusivamente da memória das pessoas e começa a construir memória organizacional.

Esse é um avanço importante de gestão.

Delegar não é simplesmente transferir tarefas

O empreendedor desorganizado costuma enfrentar um paradoxo: reclama da quantidade de atividades sob sua responsabilidade, mas encontra enorme dificuldade para delegá-las.

Muitas vezes acredita que ninguém executará determinada tarefa tão bem quanto ele próprio. Em outras situações, até tenta delegar, porém transmite informações incompletas, não define autoridade, não estabelece prazo e posteriormente se frustra com o resultado.

Delegação sem organização produz retrabalho.

Para que uma responsabilidade seja verdadeiramente delegada, quem a recebe precisa compreender o que deve ser feito, qual resultado é esperado, até onde possui autonomia e quando deverá prestar contas.

Delegar não significa abandonar.

Significa transferir execução sem perder governança sobre aquilo que realmente importa.

Existe ainda uma consequência estratégica nesse processo. O empresário que permanece responsável por todas as pequenas decisões constrói uma empresa dependente de sua presença. O crescimento passa a encontrar um limite exatamente na capacidade pessoal do proprietário de responder, conferir, autorizar e acompanhar.

Nesse modelo, o próprio empreendedor se transforma no gargalo da organização.

Uma empresa organizada procura fazer o contrário: reserva ao empresário as decisões que justificam sua responsabilidade e cria mecanismos para que as demais atividades possam seguir adequadamente sem sua interferência permanente.

O objetivo não é tornar o proprietário dispensável. É impedir que ele seja necessário para aquilo que não necessita dele.

Processos são a memória prática da empresa

Todo negócio possui atividades que se repetem.

Contas são pagas. Clientes são atendidos. Compras são feitas. Contratos são elaborados. Estoques são conferidos. Propostas são encaminhadas. Funcionários são admitidos. Documentos são arquivados.

Quando cada repetição é tratada como se estivesse acontecendo pela primeira vez, a empresa desperdiça inteligência.

Organizar processos significa aprender com a própria experiência.

Se uma determinada atividade já foi executada inúmeras vezes, é razoável perguntar se existe uma maneira melhor, mais segura e mais simples de realizá-la. É dessa observação que surgem rotinas, procedimentos, checklists, padrões e responsabilidades definidas.

Processos não devem existir para burocratizar aquilo que poderia ser simples. Sua função é justamente o contrário: retirar da memória e da improvisação aquilo que pode ser previamente organizado.

A burocracia nasce quando o procedimento passa a existir para servir ao próprio procedimento.

A organização saudável nasce quando o procedimento serve ao resultado.

Essa distinção é fundamental.

Empresas excessivamente informais tornam-se dependentes das pessoas; empresas excessivamente burocráticas tornam-se prisioneiras dos processos. A boa administração procura o equilíbrio: padronizar aquilo que necessita de continuidade e preservar liberdade onde julgamento e capacidade de adaptação são necessários.

Informação demais também desorganiza

A tecnologia facilitou enormemente o armazenamento de informações, mas criou um novo problema administrativo: a possibilidade de guardar praticamente tudo.

Arquivos, mensagens, fotografias, relatórios, planilhas, documentos e conversas acumulam-se em diferentes sistemas. O resultado pode ser uma empresa com enorme quantidade de informação e pouca capacidade de encontrá-la quando necessário.

Guardar não é organizar.

Uma informação organizada precisa possuir lógica de classificação, localização previsível e algum critério de conservação.

O mesmo vale para a comunicação. Se uma decisão importante permanece perdida em uma sequência de mensagens informais, a empresa criou um risco desnecessário. Assuntos relevantes precisam migrar, quando necessário, da conversa para o registro.

O empreendedor organizado compreende que informação empresarial possui valor. Por isso, procura preservá-la de maneira que possa ser recuperada, compreendida e utilizada no futuro.

Isso também diminui a dependência da memória e reduz o número de decisões que precisam ser tomadas repetidamente.

Organizar é preparar a empresa para decidir melhor

Existe uma dimensão ainda mais importante da organização: sua relação com a qualidade das decisões.

Uma empresa cujas informações financeiras estão desorganizadas demora mais para compreender sua própria situação. Se não conhece corretamente contas a receber, compromissos futuros, custos, margens ou disponibilidade de caixa, o empresário passa a administrar parcialmente por impressão.

O mesmo ocorre em outras áreas.

Sem informações organizadas sobre clientes, contratos, estoques, pessoas ou projetos, cada decisão exige primeiro reconstruir aquilo que deveria estar disponível.

A organização reduz essa distância entre a pergunta e a resposta.

Isso não significa que boas decisões dependam exclusivamente de sistemas sofisticados. Pequenas empresas podem ser extremamente organizadas utilizando estruturas simples. Grandes empresas podem possuir sistemas complexos e continuar administrativamente confusas.

Ferramentas ajudam, mas método vem antes da ferramenta.

A melhor tecnologia é incapaz de organizar uma empresa que não sabe quais informações precisa preservar, quem responde por elas e para que serão utilizadas.

A organização precisa acompanhar o crescimento

Há uma desorganização característica das empresas que cresceram mais rapidamente do que seus métodos.

O negócio aumentou, mas os controles permaneceram iguais aos de quando possuía uma fração do tamanho atual.

É comum que determinados procedimentos funcionem perfeitamente durante os primeiros anos e depois se tornem insuficientes. O número de funcionários muda, a quantidade de clientes cresce, surgem novas unidades, aumentam os valores envolvidos e o patrimônio se torna mais relevante.

Cada estágio exige uma nova capacidade organizacional.

O empreendedor precisa perceber essa transição.

Crescer não significa apenas vender mais. Significa também desenvolver uma estrutura capaz de suportar aquilo que foi conquistado.

Quando o crescimento econômico não é acompanhado por crescimento administrativo, começam a aparecer sintomas: retrabalho, perda de informações, dificuldade de controle, concentração excessiva de decisões, falhas de comunicação e conflitos sobre responsabilidades.

Nesse sentido, organizar é também consolidar.

É criar condições para que aquilo que foi construído não dependa permanentemente do improviso.

Organização não é rigidez

Existe uma interpretação equivocada segundo a qual pessoas organizadas seriam necessariamente inflexíveis, excessivamente metódicas ou incapazes de lidar com mudanças.

Na boa gestão ocorre justamente o contrário.

Quem possui alguma ordem consegue adaptar-se melhor porque sabe o que está alterando.

Quando prioridades, informações e responsabilidades estão claras, uma mudança pode ser incorporada conscientemente. Na desorganização, qualquer acontecimento novo mistura-se a um ambiente já confuso e aumenta ainda mais a dificuldade de decisão.

Organização não significa tentar controlar todos os acontecimentos. Nenhum empreendedor possui esse poder.

Significa estar preparado para responder a eles.

A empresa organizada continuará enfrentando crises, imprevistos, erros, mudanças econômicas, problemas com pessoas e decisões difíceis. A diferença é que enfrentará essas situações com melhores informações, responsabilidades mais claras e menor dependência da improvisação.

A disciplina invisível da boa administração

Poucas pessoas observam diretamente a organização de uma empresa. O que elas percebem são seus efeitos.

O cliente percebe a resposta recebida no prazo. O fornecedor percebe o compromisso honrado. O funcionário percebe que sabe a quem recorrer. O contador recebe os documentos corretos. O advogado encontra contratos preservados. O sócio compreende os números. O empresário consegue recuperar uma informação sem precisar reconstruir toda a história.

Por trás dessas pequenas manifestações existe uma estrutura administrativa.

É por isso que organização pode ser considerada uma disciplina invisível da gestão.

Ela raramente aparece entre as grandes histórias de empreendedorismo. Não possui o fascínio da inovação, a dramaticidade do risco ou a visibilidade de uma grande negociação. Entretanto, grande parte da permanência das empresas depende exatamente da execução consistente de atividades que jamais receberão qualquer destaque.

Empreender exige iniciativa.

Gerir exige ordem.

E existe uma fase na trajetória empresarial em que continuar avançando passa a depender menos da capacidade de fazer cada vez mais coisas e muito mais da capacidade de organizar aquilo que já está sendo feito.

O empreendedor organizado não é aquele que consegue manter tudo sob seu controle.

É aquele que constrói uma empresa na qual o que precisa ser feito tem responsável, o que precisa ser lembrado está registrado, o que precisa ser decidido recebe atenção e o que precisa continuar não depende exclusivamente de sua presença.

Essa talvez seja uma das formas mais maduras de organização empresarial.

Bom trabalho e grande abraço.

Adm. Rafael José Pôncio




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quinta-feira, 16 de abril de 2015

O que leva ao empreendedorismo? Entenda a motivação para empreender

Nos últimos tempos, observamos uma onda de pessoas que migraram do mercado tradicional para o empreendedorismo e mais uma centena de outras delas que desejam empreender. 

Os dados, por sua vez, confirmam essa tendência. De acordo com informações da Receita Federal, existem hoje mais de 4.964.402 milhões de brasileiros cadastrados como microempreendedores individuais (MEI). Em janeiro de 2014 até agora, mais de 1.3 milhões e 400 mil pessoas abriram empresas no Brasil, um registro histórico no país. 

Mas, afinal, o que leva as pessoas a se tornarem empreendedoras? Há algo além do sonho de ser dono de um negócio e de ser o próprio chefe? Qual a maior motivação para empreender? Em que consistem as aspirações do empreendedor? Há alguma relação do empreendedorismo com a inovação e a geração de valor?

Com este artigo, pretendo encontrar as respostas para essas perguntas e destrinchar as principais motivações das pessoas para seguirem no caminho do empreendedorismo. Está curioso? Acompanhe!

O que realmente significa empreender?

Empreendedorismo é muito mais que apenas abrir um negócio. É criar uma empresa que trará a solução para as demandas ou dores dos consumidores e, a partir do seu gerenciamento, gerar valor para a sociedade. 


A aspiração do empreendedor, portanto, é impactar positivamente e o resultado do seu trabalho pode implicar ou não a geração de lucro (no caso das instituições sem fins lucrativos, por exemplo, não há lucro, mas isso não quer dizer que não haja empreendedorismo na gestão desse tipo de organização, não é mesmo?). 

Empreendedorismo x Inovação

Dessa maneira, um dos papéis do empreendedor é identificar oportunidades de melhoria, ou necessidades das pessoas que precisam ser sanadas, e então explorá-las e criar soluções, produtos ou serviços capazes de suprir essas demandas. 


Nesse sentido, o empreendedorismo e a inovação caminham juntos. As chances de sucesso aumentam quando algo em um negócio é inovador. É importante pensar fora da caixa. E não se trata de criar algo do zero, uma invenção maluca e completamente disruptiva. Muitos casos de sucesso são ideias simples, apenas uma forma de fazer diferente que ninguém havia pensado antes.  

Qual a motivação das pessoas para empreender? Conheça as principais!

E por que tantas pessoas se sentem atraídas a empreender ou têm buscado adotar o empreendedorismo como plano de vida? A realidade é que muitos fatores podem levar as pessoas a seguirem por esse caminho, desde realização pessoal até a falta de oportunidades. Confira as motivações mais comuns a seguir. 

  • Conquistar mais liberdade e autonomia

Muita gente está cansada da rotina de trabalhar em horário comercial, fechada em um escritório, e acredita que o trabalho autônomo proporciona mais liberdade e flexibilidade de horário, além de mobilidade geográfica. É uma forma de ter mais autonomia para administrar o tempo e equilibrar melhor a vida profissional e a vida pessoal. 


Só é preciso ter cuidado, pois, nem sempre, empreender significa ter mais tempo. Pelo contrário, muitas vezes a tendência é trabalhar ainda mais. Então, é necessário ficar atento e gerenciar o tempo com inteligência para usar a flexibilidade na rotina a seu favor. 

  • Desejo de fazer diferença no mundo e causar impacto positivo na vida das pessoas

Na visão de alguns, o empreendedorismo pode ser a porta para ajudar pessoas por meio de um trabalho que traga algum benefício para a vida delas. Tem relação com a realização de um propósito de vida e de fazer a diferença no mundo. Fato é que muitas iniciativas de empreendedores têm realmente contribuído para gerar impactos positivos na sociedade, seja por meio de ideias inovadoras, serviços, visibilidade social de grupos minoritários e geração de empregos. 

  • Falta de oportunidade no mercado de trabalho ou necessidade de aumentar a renda

Em alguns casos, empreender pode ser a única alternativa. Em uma situação de crise macroeconômica, como a que vivemos no mundo em 2008, muita gente perdeu o emprego e decidiu abrir um negócio próprio para conseguir se sustentar. Para outras pessoas, empreender também pode ser uma maneira de aumentar a renda. 

  • Alcançar a satisfação pessoal de ter o próprio negócio e ser seu próprio chefe

Existe também aquela ideia quase romantizada que, lá no fundo, todo mundo tem: de deixar de ser empregado, não ter chefe, tomar as próprias decisões. Ou seja, ser dono da empresa e do seu próprio destino. Não ter que dar satisfações a ninguém!


Porém, é bom avisar que a realidade de um empreendedor não é tão cor-de-rosa assim. Há muita responsabilidade, muito trabalho e muita pressão. E nem sempre há a garantia de ganhos no final do mês.

  • Realizar o sonho de ganhar a vida trabalhando com o que desperta a sua paixão

E se você pudesse transformar o seu hobby em negócio? Muita gente conseguiu fazer desse sonho uma realidade. E essa é uma das principais motivações para as pessoas desejarem empreender. 


Por muito tempo, o trabalho foi somente um meio de garantir o sustento e muitas pessoas escolhiam suas profissões baseadas exclusivamente no retorno financeiro que elas lhe dariam. Hoje, as pessoas querem se sentir realizadas e desejam aliar o trabalho ao que gostam, às suas paixões. Nesse sentido, empreender pode ser um caminho para isso.

  • Construir riqueza

Há muitos casos de sucesso no empreendedorismo e há uma ilusão de que essa é a melhor forma para enriquecer de forma rápida e acumular riqueza. Por isso, muitos podem ser movidos pela ambição e se sentirem atraídos pela ideia de uma vida de luxo e independência financeira, mas não estão cientes que a jornada empreendedora pode ser, na verdade, bastante tortuosa e cheia de obstáculos. 

  • Seguir tradição familiar

Por último, outra razão para empreender é a de seguir uma tradição familiar. Existem negócios de famílias empreendedoras e para os sucessores dar continuidade pode ser um motivo para optar por esse caminho.


Por mais que eu tenha citado as principais razões neste texto, acredito que haja ainda mais diversas motivações para empreender. O empreendedorismo está no DNA do brasileiro, que tem uma capacidade criativa sem igual, além de uma dose extra de resiliência e a habilidade de se readaptar a qualquer situação, por mais difícil que ela seja. E você? Por que deseja empreender ou continuar empreendendo?


Bom trabalho e grande abraço.


Adm. Rafael José Pôncio





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terça-feira, 24 de março de 2015

Böhm-Bawerk e a teoria dos juros na Escola Austríaca

Böhm-Bawerk e a teoria dos juros na Escola Austríaca

Explore a vida de Eugen von Böhm-Bawerk e sua teoria dos juros, que transformou a economia ao explicar capital, tempo e preferência temporal.



O Economista Austríaco teórico sobre os juros

Eugen von Böhm-Bawerk ocupa um lugar singular na história da ciência econômica. Discípulo direto de Carl Menger, foi responsável por ampliar e consolidar a Escola Austríaca de Economia ao elaborar uma teoria dos juros que uniu capital, tempo e preferência temporal. Sua obra não apenas enfrentou os grandes debates de seu tempo, especialmente com os socialistas e marxistas, mas também lançou bases conceituais que continuam a influenciar a teoria econômica contemporânea. Mais do que um acadêmico, Böhm-Bawerk foi também um homem de ação: atuou como Ministro das Finanças do Império Austro-Húngaro, buscando aplicar na prática princípios que defendia em seus estudos.



Trajetória biográfica de Eugen von Böhm-Bawerk

Nascido em 1851, em Brno, no então Império Austríaco, Böhm-Bawerk formou-se em Direito em Viena, mas logo encontrou na economia sua verdadeira vocação. O contato com os escritos de Carl Menger, fundador da Escola Austríaca, foi determinante para direcionar seus estudos.

Como professor, destacou-se na Universidade de Innsbruck, onde escreveu as obras que o consagrariam: Capital e Juros (1884) e A Teoria Positiva do Capital (1889). Seu prestígio intelectual o levou à vida pública, tornando-se Ministro das Finanças em três ocasiões, período em que enfrentou debates fiscais e defendeu políticas orçamentárias prudentes.

Böhm-Bawerk faleceu em 1914, deixando um legado duradouro. Sua vida sintetiza a rara combinação entre rigor acadêmico e experiência prática no governo.



A Teoria dos Juros

O núcleo da contribuição de Böhm-Bawerk está em sua teoria dos juros. Para ele, o juro não era um fenômeno arbitrário ou resultado da exploração do trabalhador, como sustentava Marx, mas uma consequência lógica da relação entre tempo, capital e preferência humana.

Crítica à teoria do valor-trabalho de Marx

Böhm-Bawerk foi um dos mais consistentes críticos de Karl Marx. Em seu ensaio Karl Marx e o fechamento de seu sistema (1896), desmontou as contradições da teoria do valor-trabalho, mostrando que ela não explicava adequadamente a origem dos lucros. Se o valor derivasse apenas do trabalho, não haveria base racional para compreender por que os capitais aplicados em diferentes setores obtêm taxas de retorno distintas.

O papel do tempo e da espera na formação do juro

Segundo Böhm-Bawerk, a existência do juro decorre da preferência temporal: os indivíduos valorizam mais os bens presentes do que os futuros. Esse comportamento humano universal explica por que quem poupa e adia o consumo é recompensado. O capital, portanto, não é apenas um estoque físico, mas um processo temporal que envolve etapas de produção mais longas e sofisticadas.

O papel do tempo e da espera na formação do juro

Os juros seriam, assim, a compensação pela espera, o “preço do tempo” que equilibra poupança e investimento.



Contribuições para a Escola Austríaca

A teoria de Böhm-Bawerk consolidou a Escola Austríaca como uma alternativa vigorosa ao pensamento clássico e marxista. Seu foco na subjetividade, na ação individual e no papel do tempo abriu caminho para Ludwig von Mises, que aprofundou a teoria do capital em sua obra Ação Humana. Hayek, por sua vez, desenvolveu a dimensão intertemporal da produção e mostrou como distorções monetárias afetam os ciclos econômicos.

Assim, Böhm-Bawerk foi elo fundamental entre o pioneirismo de Menger e o florescimento posterior da tradição austríaca no século XX.



Atualidade da teoria dos juros

Ainda hoje, a teoria dos juros de Böhm-Bawerk mantém relevância. Em tempos de políticas monetárias expansionistas, taxas de juros artificialmente baixas e incentivos ao endividamento, a reflexão austríaca sobre preferência temporal se mostra atualíssima.

teoria dos juros de Böhm-Bawerk

Sua análise permite compreender fenômenos como bolhas financeiras, desalinhamento entre poupança e investimento e ciclos de expansão e recessão. A defesa de juros determinados pelo mercado, e não por manipulação estatal, ressoa fortemente nos debates econômicos contemporâneos.



Considerações finais

Eugen von Böhm-Bawerk foi mais do que um economista: foi um pensador que desafiou paradigmas, enfrentou teorias consolidadas e deixou um sistema conceitual duradouro. Ao explicar os juros como fenômeno natural da preferência temporal, libertou a economia de interpretações reducionistas e ofereceu uma base sólida para compreender o papel do capital na sociedade.

Sua biografia, marcada por rigor intelectual e serviço público, mostra que as ideias não vivem isoladas nos livros, mas podem influenciar políticas e moldar nações.

A teoria dos juros de Böhm-Bawerk permanece um convite à reflexão sobre como o tempo, o capital e as escolhas humanas determinam o curso do desenvolvimento econômico.

Bom trabalho e grande abraço.

Rafael José Pôncio




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quarta-feira, 11 de março de 2015

O arquétipo do tigre: força, estratégia e domínio próprio

Uma reflexão sobre a capacidade de observar, preparar-se e agir com firmeza, sem permitir que a própria força se transforme em excesso.


A imagem de um tigre costuma despertar uma impressão imediata de força. Mas há algo igualmente expressivo quando o imaginamos em repouso: a presença de uma capacidade que não precisa ser demonstrada a todo instante. Essa imagem oferece um bom ponto de partida para pensar sobre o empreendedorismo, especialmente quando confundimos iniciativa com pressa, autoridade com imposição e crescimento com a necessidade de avançar em todas as direções.

Quem empreende conhece a inquietação de querer fazer as coisas acontecerem. Uma ideia começa a tomar forma, encontramos uma possibilidade de negócio e logo desejamos vê-la funcionando. Essa disposição é valiosa, porque nenhum empreendimento se realiza apenas no pensamento. Entretanto, a mesma vontade que nos ajuda a começar pode nos levar a assumir compromissos antes de compreender suas consequências. Aprender a conduzir essa força faz parte do trabalho de construir uma empresa.

É nesse sentido simbólico que podemos falar do arquétipo do tigre. Sua imagem permite refletir sobre atenção, preparo, concentração e firmeza. Não se trata de atribuir ao animal virtudes humanas ou de transformar seu comportamento em uma receita de gestão. A natureza pode despertar perguntas interessantes, mas cabe a nós respondê-las com discernimento e responsabilidade.

Observar antes de ocupar espaço

Ao contemplar a figura de um tigre atento, podemos pensar no valor da observação. Para o empreendedor, observar significa conceder à realidade a oportunidade de contrariar suas expectativas. Quem já se apaixonou por uma ideia sabe como é tentador enxergar apenas aquilo que confirma sua viabilidade. Uma conversa animadora parece comprovar a existência de demanda; um primeiro pedido pode ser interpretado como sinal de sucesso; uma dificuldade acaba tratada como detalhe que será resolvido depois.

A observação cuidadosa pede outra postura. Antes de concluir que o cliente precisa de determinado produto, é necessário ouvi-lo. Antes de entrar em um mercado, convém compreender como as pessoas compram, quais problemas enfrentam e por que algumas soluções existentes não as atendem. Até mesmo uma objeção, inicialmente recebida como resistência, pode revelar algo importante sobre o que ainda não conseguimos oferecer.

Isso exige humildade, sobretudo quando temos experiência. Conhecer um setor ajuda, mas não nos dispensa de examinar cada situação. Uma decisão que funcionou em outro momento pode não servir às condições atuais. O empreendedor atento preserva o que aprendeu sem transformar a própria trajetória em uma resposta pronta para tudo. Sua experiência deve melhorar as perguntas, não encerrar a investigação.

Observar, porém, precisa produzir entendimento. Há quem acompanhe tantas informações, opiniões e tendências que termine o dia mais inquieto e menos capaz de decidir. A atenção que interessa ao negócio é aquela que nos aproxima de questões concretas: o que mudou, o que isso significa para nossa atividade e qual providência merece ser tomada.

Preparar-se para que a coragem tenha sustentação

A força representada pelo tigre pode nos lembrar da capacidade de agir, mas, na vida empresarial, essa capacidade precisa ser construída. A vontade de abrir uma empresa não substitui o conhecimento dos custos, assim como a disposição de trabalhar muitas horas não corrige, por si mesma, um preço mal calculado. Coragem e preparo precisam caminhar juntos para que o entusiasmo encontre condições de se transformar em trabalho consistente.

Preparar-se envolve tarefas que nem sempre despertam o mesmo interesse da ideia inicial. É necessário conferir números, conhecer fornecedores, definir responsabilidades, avaliar a capacidade de entrega e compreender quais compromissos terão de ser honrados mesmo quando as vendas estiverem abaixo do esperado. Nessa etapa, o projeto deixa de ser apenas uma possibilidade atraente e começa a assumir o peso de uma responsabilidade real.

Imagine quem deseja abrir uma segunda unidade porque a primeira está movimentada. O crescimento parece uma consequência natural, mas algumas perguntas precisam anteceder a decisão: a operação atual produz resultado ou apenas exige muito trabalho? Ela funciona sem a presença constante do proprietário? Existem pessoas preparadas para assumir novas responsabilidades? O atendimento continuará bom quando a atenção do empreendedor estiver dividida? Responder a essas questões não diminui a ambição; ajuda a dar sustentação a ela.

Também é preciso reconhecer que nenhuma preparação elimina toda a incerteza. Esperar uma garantia absoluta pode se tornar uma maneira de adiar indefinidamente o começo. O desafio está em reunir informações suficientes, compreender o risco e estabelecer limites para agir com responsabilidade. Um primeiro passo menor, que permita aprender sem comprometer toda a estrutura, pode ser mais sensato do que uma estreia grandiosa da qual seja difícil recuar.

Concentrar a força no que merece continuidade

A imagem do tigre também pode representar concentração. No empreendedorismo, essa reflexão tem especial valor porque a curiosidade, tão útil para descobrir possibilidades, pode nos conduzir à dispersão. Um novo serviço parece promissor, uma parceria surge durante uma conversa e um investimento chama a atenção. Cada oportunidade, examinada isoladamente, encontra uma boa justificativa. O problema aparece quando todas passam a disputar os mesmos recursos.

Além do dinheiro, existe um limite de atenção. Cada atividade assumida traz decisões, compromissos e problemas que precisarão ser acompanhados. Nem sempre percebemos esse custo no momento do entusiasmo. Ele se torna visível depois, quando o negócio principal começa a receber menos cuidado, as respostas atrasam e a qualidade do trabalho depende de um esforço cada vez maior para manter tudo funcionando.

Ter foco exige fazer escolhas e suportar o desconforto de deixar algumas possibilidades para trás. Recusar um projeto interessante pode ser necessário para concluir bem aquilo que já está em andamento. Isso não torna a pessoa menos empreendedora. Significa reconhecer que construir alguma coisa com consistência demanda continuidade, inclusive depois que a novidade perde o encanto.

Vale perguntar, antes de assumir outra frente, se ela fortalece o que já estamos fazendo ou apenas satisfaz nossa vontade de começar novamente. Há uma realização mais discreta em melhorar uma operação, formar uma equipe e aperfeiçoar um serviço. Ela pode não produzir a mesma empolgação de um lançamento, mas merece nossa dedicação.

Persistir sem se tornar prisioneiro da própria decisão

A determinação ajuda o empreendedor a atravessar dificuldades que não se resolvem depressa. É preciso disposição para corrigir falhas, aprender o que ainda não sabemos e continuar trabalhando quando o reconhecimento demora. Entretanto, a firmeza perde sua utilidade quando deixa de considerar os fatos e passa a servir apenas à necessidade de provar que estávamos certos.

Um projeto carrega mais do que dinheiro. Nele colocamos expectativas, tempo e parte de nossa identidade. Às vezes, anunciamos nossos planos com tanta convicção que mudar de direção parece uma derrota diante dos outros. Nessas circunstâncias, reconhecer um equívoco exige enfrentar também a frustração de abandonar a história que imaginávamos contar sobre nós mesmos.

Por isso, a persistência precisa de critérios. Devemos acompanhar resultados, estabelecer limites e identificar quais condições justificam continuar. Uma dificuldade de execução pode pedir aperfeiçoamento; a ausência de demanda pode exigir uma mudança mais profunda. Tratar situações diferentes como se todas fossem resolvidas com mais esforço pode prolongar um problema e consumir recursos necessários à recuperação.

Recuar de uma decisão não apaga o aprendizado nem invalida toda a trajetória. Pode representar justamente a disposição de proteger o que ainda tem valor. A força, nesse caso, aparece na capacidade de aceitar a realidade e reorganizar o caminho, mesmo quando isso exige uma conversa desconfortável e uma revisão das próprias expectativas.

Exercer autoridade sem transformar relações em disputa

Ao utilizar a imagem de um animal forte, precisamos reconhecer os limites da comparação. Uma empresa não deve ser conduzida como um ambiente em que todos disputam sobrevivência contra todos. Clientes não são presas, funcionários não são adversários e uma negociação não precisa terminar com alguém humilhado para que tenha sido bem-sucedida.

Na vida empresarial, podemos ocupar posições de vantagem por diferentes motivos: conhecimento, recursos financeiros, experiência ou autoridade formal. O modo de utilizar essa vantagem merece cuidado. Uma pessoa que depende de nossa decisão pode concordar sem estar convencida, silenciar uma dificuldade por receio ou aceitar uma condição que não conseguirá cumprir. Cabe a quem conduz a relação procurar clareza, em vez de se satisfazer apenas com a ausência de oposição.

Isso não impede a firmeza. Há compromissos que precisam ser cobrados, limites que devem ser mantidos e decisões que não podem ser adiadas. O domínio próprio está em fazer o necessário sem acrescentar agressividade ao que já é difícil. Uma cobrança pode ser objetiva; uma recusa pode ser respeitosa; uma orientação pode ser clara sem que o outro precise se sentir diminuído.

Também precisamos cuidar daquilo que fazemos quando somos contrariados. Uma crítica, um atraso ou uma proposta recusada podem despertar a vontade de responder imediatamente. Antes de agir, convém compreender o problema e distinguir o interesse da empresa do incômodo pessoal. Nem toda discordância é uma afronta, e nem toda situação precisa ser resolvida pela demonstração de quem tem a palavra final.

A força que aprendemos a conduzir

O tigre, como imagem simbólica, nos oferece uma oportunidade de refletir sobre o uso de nossas capacidades. Podemos admirar sua potência e, a partir dela, perguntar o que fazemos com os recursos que estão ao nosso alcance. Nossa atenção está bem direcionada? Estamos preparados para os compromissos que desejamos assumir? Temos firmeza para continuar e lucidez para mudar? Conseguimos exercer autoridade sem depender do medo que provocamos?

Essas perguntas ganham importância à medida que o empreendimento cresce. Ter mais recursos amplia as possibilidades, mas também aumenta o alcance de nossas decisões. Uma escolha que antes afetava apenas o próprio empreendedor pode passar a interferir na vida de funcionários, fornecedores, clientes e suas famílias. O crescimento precisa vir acompanhado da disposição de compreender esse alcance.

Não precisamos diminuir a ambição de construir, prosperar e conquistar autonomia. Precisamos dar a essa ambição uma direção que possamos sustentar com responsabilidade. O esforço vale mais quando conseguimos reconhecer sentido no que fazemos, cuidar das relações envolvidas e preservar a capacidade de corrigir o caminho.

Talvez seja essa a reflexão mais útil que podemos retirar da imagem do tigre em repouso: possuir força não nos obriga a utilizá-la a todo instante. Há momentos de avançar, momentos de preparar e momentos de conter um impulso para não comprometer o que levou anos para ser construído. Aprender essa diferença faz parte do amadurecimento de quem empreende.

Bom trabalho e grande abraço!

Rafael José Pôncio


Conheça também:

Sobre Virtudes e Empreendedores

          


        Reprodução permitida, desde que mencionado o Nome do Autor e o link fonte.       

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Comentários sobre as 10 Características Comportamentais do Empreendedor - CCEs

Uma leitura prática das CCEs do Empretec para aprimorar decisões, enfrentar desafios e conduzir negócios com mais consciência e consistência.





As 10 Características do Comportamento Empreendedor - CCEs


Reflexões para quem empreende

Conhecer o próprio negócio não significa, necessariamente, compreender a maneira como se age à frente dele. Um empreendedor pode dominar seu produto e adiar decisões importantes; trabalhar intensamente e perder de vista suas prioridades; identificar oportunidades e não conseguir transformá-las em resultados. Além do conhecimento técnico e gerencial, é preciso examinar os comportamentos que orientam essas escolhas.

As pesquisas do psicólogo americano David C. McClelland contribuíram para a base metodológica do Empretec, programa das Nações Unidas voltado ao desenvolvimento do comportamento empreendedor e realizado no Brasil pelo Sebrae. Sua proposta reconhece que esses comportamentos podem ser desenvolvidos, em vez de tratados apenas como talentos com os quais algumas pessoas nasceram. Referências: UNCTAD e Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas).

As dez Características do Comportamento Empreendedor, conhecidas como CCEs, estão organizadas em três conjuntos: Realização, Planejamento e Poder. Os tópicos abaixo preservam os comportamentos apresentados no artigo original. Os comentários que os acompanham constituem uma reflexão autoral sobre sua aplicação na vida empresarial, sem substituir a metodologia ou a experiência do seminário.



Conjunto de Realização


CCE 1 — Busca de oportunidades e iniciativa

  • Faz as coisas antes de solicitado ou antes de forçado pelas circunstâncias;

  • Age para expandir o negócio a novas áreas, produtos ou serviços;

  • Aproveita oportunidades fora do comum para começar um negócio, obter financiamento, equipamentos, local de trabalho ou assistência.

Comentário:

Há oportunidades que aparecem disfarçadas de pequenos incômodos: uma reclamação recorrente, uma necessidade mal atendida ou uma dificuldade que o setor inteiro se acostumou a tolerar. O empreendedor atento percebe que aquilo que parece apenas um problema pode revelar algo pelo qual o cliente estaria disposto a pagar. A iniciativa começa quando essa percepção se transforma em uma providência concreta.

Entretanto, enxergar possibilidades não obriga a perseguir todas elas. Cada nova frente disputa tempo, atenção e recursos com o negócio existente. A maturidade está em escolher onde agir e reconhecer quando uma ideia merece ser explorada, quando precisa esperar e quando deve ser descartada. Iniciativa sem escolha pode produzir muita movimentação e pouco avanço.

CCE 2 — Correr riscos calculados

  • Avalia alternativas e calcula riscos deliberadamente;

  • Age para reduzir os riscos ou controlar os resultados;

  • Coloca-se em situações que implicam desafios ou riscos moderados.

Comentário:

A expectativa de ganho costuma receber mais atenção do que a capacidade de suportar uma perda. Antes de assumir um compromisso relevante, convém perguntar: se as vendas demorarem, os custos aumentarem ou a ideia não funcionar, o negócio continuará de pé? Uma possibilidade atraente deixa de ser razoável quando seu fracasso compromete a continuidade da empresa e a segurança da família.

Quando o modelo permitir, começar em menor escala e ampliar a operação à medida que a demanda se comprova oferece espaço para aprender sem comprometer, de uma só vez, recursos excessivos. Isso não transforma todo investimento elevado em imprudência; exige que a exposição seja compatível com a capacidade de absorver perdas. Coragem empresarial também se expressa nos limites que o empreendedor decide respeitar.

CCE 3 — Exigência de qualidade e eficiência

  • Encontra maneiras de fazer as coisas melhor, mais rápido ou mais barato;

  • Age de maneira a fazer coisas que satisfaçam ou excedam padrões de excelência;

  • Desenvolve ou utiliza procedimentos para assegurar que o trabalho seja terminado a tempo ou que atenda a padrões de qualidade previamente combinados.

Comentário:

O cliente percebe qualidade na experiência que recebe, não no esforço que a empresa afirma ter feito. Um atendimento cuidadoso perde força quando a entrega falha; um preço menor deixa de ser vantagem quando gera retrabalho. Por isso, melhorar exige compreender o que realmente importa para quem compra e onde a operação desperdiça recursos sem acrescentar valor.

Essa exigência precisa tornar-se uma maneira de trabalhar que a equipe consiga reproduzir. Se tudo depende da vigilância permanente do proprietário, o padrão ainda é frágil. Cabe transformar os acertos em práticas consistentes e as falhas em aprendizado. Excelência não exige desvalorizar o que foi conquistado nem perseguir uma perfeição que impede a entrega: exige elevar o padrão com discernimento.

CCE 4 — Persistência

  • Age diante de um obstáculo significativo;

  • Age repetidamente ou muda de estratégia a fim de enfrentar um desafio ou superar um obstáculo;

  • Faz um sacrifício pessoal ou despende um esforço extraordinário para completar uma tarefa.

Comentário:

Uma dificuldade não demonstra, por si só, que o objetivo está errado. Há negociações, melhorias e projetos que exigem várias tentativas antes de produzir resultado. O problema surge quando o empreendedor passa a defender uma escolha apenas porque já dedicou dinheiro, tempo ou prestígio a ela. Nesse momento, o desejo de não admitir uma perda pode ocupar o lugar do compromisso com o negócio.

Persistir exige disposição para continuar aprendendo durante o esforço. Uma tentativa frustrada precisa ajudar a compreender o obstáculo, e não apenas justificar outra tentativa idêntica. Em certas situações, abandonar um caminho inviável é justamente o que permite preservar o objetivo maior. A empresa precisa da perseverança de seu dirigente, mas não deve ficar refém de sua dificuldade de voltar atrás.

CCE 5 — Comprometimento

  • Assume responsabilidade pessoal por solucionar problemas que possam prejudicar a conclusão de um trabalho nas condições estipuladas;

  • Colabora com seus empregados ou coloca-se no lugar deles, se necessário, para terminar uma tarefa;

  • Esforça-se em manter os clientes satisfeitos e coloca a boa vontade a longo prazo acima do lucro a curto prazo.

Comentário:

A confiança em uma empresa é especialmente testada quando alguma coisa dá errado. Nessa hora, o cliente precisa encontrar alguém que reconheça o problema, informe com clareza o que será feito e acompanhe a solução. Transferir a culpa para um funcionário ou fornecedor pode explicar a origem da falha, mas não resolve a responsabilidade assumida perante quem contratou.

Esse compromisso começa antes da venda, na honestidade sobre o que é possível entregar. Também exige preparar a equipe para cumprir o combinado. A dedicação do proprietário pode ser decisiva em uma emergência, mas não deve sustentar uma rotina de improvisos e sobrecarga. Comprometer-se com a empresa inclui criar condições para que ela honre sua palavra sem depender de sacrifícios permanentes.



Conjunto de Planejamento

CCE 6 — Busca de informações

  • Dedica-se pessoalmente a obter informações de clientes, fornecedores ou concorrentes;

  • Investiga pessoalmente como fabricar um produto ou fornecer um serviço;

  • Consulta especialistas para obter assistência técnica ou comercial.

Comentário:

Uma das informações mais úteis ao empreendedor pode ser justamente aquela que contraria sua ideia inicial. Quando se procura apenas a confirmação do que já se deseja fazer, até uma pesquisa extensa pode servir de justificativa para uma decisão previamente tomada. Ouvir quem deixou de comprar, questionar uma estimativa otimista e conhecer as condições por trás de uma experiência bem-sucedida ampliam a compreensão do negócio.

Informar-se bem exige distinguir fatos, opiniões e interesses de quem fornece os dados. A experiência de um especialista contribui, mas não dispensa perguntas nem a compreensão das premissas utilizadas. O propósito dessa busca é esclarecer uma decisão concreta; acumular conteúdo indefinidamente, sem aplicá-lo, pode tornar-se uma forma sofisticada de adiar a ação.

CCE 7 — Estabelecimento de metas

  • Estabelece metas e objetivos que são desafiantes e que têm significado pessoal;

  • Tem visão de longo prazo, clara e específica;

  • Estabelece objetivos de curto prazo mensuráveis.

Comentário:

Uma meta merece atenção não apenas pelo número que apresenta, mas pelo tipo de empresa que ajuda a construir. Aumentar o faturamento, por exemplo, pode parecer um avanço enquanto a margem diminui, os recebimentos atrasam e a operação perde capacidade de atender bem. O indicador escolhido orienta esforços e, por isso, precisa representar um resultado que faça sentido para o negócio.

O significado pessoal também importa: crescer para quê, atender quem e construir o quê ao longo do tempo? Sem essa reflexão, o empreendedor pode perseguir o tamanho ou a visibilidade de outras empresas, adotando ambições que não são suas. Metas bem escolhidas ajudam a definir prioridades e a recusar iniciativas atraentes que afastariam a empresa daquilo que pretende realizar.

CCE 8 — Planejamento e monitoramento sistemáticos

  • Planeja dividindo tarefas de grande porte em subtarefas com prazos definidos;

  • Constantemente revisa seus planos levando em conta os resultados obtidos e mudanças circunstanciais;

  • Mantém registros financeiros e utiliza-os para tomar decisões.

Comentário:

Um plano só começa a cumprir sua função quando entra na rotina das decisões. Registrar intenções e arquivá-las oferece pouca orientação a quem precisa decidir o que fazer nesta semana, quem será responsável e quais recursos estarão disponíveis. O acompanhamento aproxima o projeto da operação e permite perceber desvios enquanto ainda há tempo para agir.

Uma empresa pode vender mais e, ao mesmo tempo, enfrentar falta de caixa porque recebe depois de pagar seus compromissos. Sem confrontar o previsto com o realizado, essa diferença pode aparecer apenas quando o problema já se tornou urgente. Monitorar significa usar os registros para compreender o que aconteceu, corrigir o percurso e melhorar as próximas estimativas. O plano deve ser uma referência de trabalho, não uma promessa de que a realidade obedecerá ao papel.



Conjunto de Poder

CCE 9 — Persuasão e rede de contatos

  • Utiliza estratégias deliberadas para influenciar ou persuadir os outros;

  • Utiliza pessoas-chave como agentes para atingir seus próprios objetivos;

  • Age para desenvolver e manter relações comerciais.

Comentário:

Uma proposta ganha força quando a outra parte compreende por que vale a pena participar dela. Para isso, o empreendedor precisa conhecer interesses, apresentar argumentos verificáveis e lidar honestamente com objeções. Uma concordância obtida por pressão ou por promessas exageradas pode até fechar uma negociação, mas compromete a confiança necessária para os próximos negócios.

Da mesma forma, uma rede de contatos não se mede apenas pela quantidade de nomes que se consegue reunir. Seu valor depende da qualidade das relações: cumprir a palavra, compartilhar conhecimento, fazer uma apresentação útil e reconhecer a contribuição alheia. Pessoas não são recursos descartáveis. Relações empresariais duradouras precisam comportar benefício recíproco, respeito e espaço para uma recusa.

CCE 10 — Independência e autoconfiança

  • Busca autonomia em relação a normas e controles de outros;

  • Mantém seu ponto de vista mesmo diante da oposição ou de resultados inicialmente desanimadores;

  • Expressa confiança na sua própria capacidade de completar uma tarefa difícil ou de enfrentar um desafio.

Comentário:

Há decisões que ninguém poderá tomar no lugar do empreendedor. Conselhos e análises ajudam, mas não eliminam a responsabilidade de escolher diante de alguma incerteza. A autoconfiança permite assumir essa posição sem depender da aprovação de todos, apoiando-se na própria preparação e na disposição de aprender com as consequências.

Essa segurança também precisa permitir a frase “eu estava errado”. Rever uma convicção diante de evidências não diminui a autonomia; demonstra que o compromisso está com a realidade, e não com a defesa da própria imagem. Independência tampouco significa fazer tudo sozinho ou desconsiderar obrigações assumidas. Um empreendedor seguro pode delegar, pedir ajuda e reconhecer limites sem abrir mão da responsabilidade por suas decisões.



Desenvolver o empreendedor para fortalecer o negócio

As CCEs ganham sentido quando deixam de ser uma lista de qualidades desejáveis e se tornam critérios para examinar a própria conduta. O exercício é concreto: observar uma decisão recente, identificar o comportamento que faltou e escolher o que será feito de maneira diferente na próxima situação. Reconhecer uma característica no discurso é mais fácil do que sustentá-la sob pressão.

Nenhuma dessas características, isoladamente ou em conjunto, garante o sucesso de uma empresa. Mercado, recursos e condições externas também influenciam os resultados. Ainda assim, desenvolver o próprio comportamento amplia a capacidade de lidar com essas condições e de reconhecer o que precisa mudar.

Para quem pretende empreender ou já conduz um negócio, recomendo conhecer o Empretec e avaliar a participação no seminário. A proposta vivencial permite trabalhar esses comportamentos em atividades práticas. As informações sobre turmas e critérios de participação devem ser consultadas diretamente no Sebrae.

Conduzir um negócio exige mais do que saber o que fazer. Exige disposição para reconhecer como se age — e responsabilidade para melhorar essa maneira de agir.

Bom trabalho e grande abraço.

Adm. Rafael José Pôncio


        Reprodução permitida, desde que mencionado o Nome do Autor e o link fonte.       
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